A Controvérsia Fundamentalista-Modernista na Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos – Parte 1

I. Observações Preliminares não Contidas no Trabalho Original

A. Apresentação do Trabalho

Peço ao leitor que me perdoe, neste primeiro capítulo, acrescentado agora, em 2014, a mistura de história e biografia. Poderia ter escrito um capítulo despido de considerações pessoais — mas optei por não fazê-lo, porque a Controvérsia entre os Fundamentalistas e os Modernistas na Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos não é, para mim, como se verá, apenas uma questão histórica: é, também, de muitas maneiras, parte de minha biografia. Sou quem sou hoje, em grande medida, por causa dessa controvérsia, primeiro em sua versão tupiniquim, depois em sua versão original.

Escrevi o trabalho que aqui apresento ao público brasileiro em 1968 (ele foi concluído no final do mês de Abril) como exigência parcial da disciplina de História da Igreja Americana que cursei em meu primeiro ano no programa de Mestrado em Teologia do Seminário Presbiteriano de Pittsburgh (Pittsburgh Theological Seminary – PTS), em Pittsburgh, PA, nos Estados Unidos.

Eu tinha então 24 anos – e uma mania, que não perdi até hoje, de escrever trabalhos longos e detalhados. O trabalho alcançou mais de cem páginas datilografadas em espaço duplo e meu professor, um inglês meio chatinho, Prof. Robert S. Paul (então no seu primeiro ano em Pittsburgh, onde ficou de 1967 a 1977), reclamou do seu tamanho, dizendo que teve de gastar mais do dobro do tempo lendo o meu trabalho do que normalmente gastava com trabalhos desse tipo. Fiquei com a impressão de que não o leu por inteiro. A primeira parte retornou bem anotada, inclusive com correção de alguns erros de Inglês (eu estava em meu primeiro ano de estudos nos Estados Unidos), mas os comentários e as correções virtualmente desapareceram da metade para o fim. Hoje eu o compreendo – na época fiquei irritado. Apesar da ranzinzice do mestre, ele me deu um “A” pelo trabalho. Talvez pela dor de consciência de não tê-lo lido por inteiro… Mas especulo.

Fez, portanto, alguns meses atrás, 46 anos que escrevi o trabalho que apresentarei a seguir. É um bocado de tempo. É surpreendente que continue a ser tão atual no contexto das igrejas brasileiras.

Em 1968, quando escrevi o trabalho, os incidentes que redundaram, em Agosto de 1966, em minha expulsão do Seminário Presbiteriano de Campinas estavam bem frescos em minha memória e em minhas emoções. Escolhi, como tema dos meus trabalhos, na disciplina História da Igreja Americana, em Pittsburgh, que durava dois semestres, dois tópicos que tinham muito que ver com a crise da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), responsável direta pela crise no principal seminário dela, o Seminário Presbiteriano de Campinas.

O primeiro trabalho, escrito no primeiro semestre da disciplina, que começou em Setembro e terminou em Dezembro de 1967, foi sobre o Evangelho Social. Também foi longo – e recebeu igual reclamação do mesmo professor. O segundo foi este. Fui, portanto, reincidente em abusar da paciência do professor com o tamanho do trabalho.

Traduzo-o agora para o Português por estar envolvido com a matéria História da Igreja na Faculdade de Teologia São Paulo (FATIPI) da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB). Espero que o trabalho nos ajude a entender melhor as crises semelhantes por que passaram, não só a IPB, mas também a IPIB e outras denominações protestantes do Brasil, como a Igreja Metodista. Infelizmente, não estou totalmente convicto de que tenhamos ultrapassado o tempo dessas crises. Como muita gente já disse, quem não conhece a história está condenado a repeti-la. Espero que o trabalho ajude a evitar crises futuras, seja na IPB, da qual saí em 1967, seja na IPIB, da qual sou membro desde 2010.

Mas não sou muito otimista. Na Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (PCUSA, originalmente, como se verá na seção seguinte), houve várias crises seguidas, que redundaram até mesmo em cismas (depois cancelados através de reunificações), e as mesmas causas foram operantes em todas essas crises — a igreja não conseguia aprender com sua própria história. Hoje ela novamente corre risco de, depois de tantos cismas e reunificações, mais uma vez se dividir — possivelmente para se reunificar mais adiante.

É oportuno esclarecer que, sendo eu próprio o tradutor do meu trabalho, tomei a liberdade de corrigir o que hoje me pareceram ser pequenas impropriedades linguísticas e conceituais do trabalho original.

Por fim, peço que o leitor perdoe alguns arroubos juvenis meus. Eles são, espero, mais justificáveis, ou pelo menos mais compreensíveis, em um autor de apenas 24 anos.

B. As Igrejas Presbiterianas dos Estados Unidos

Devo esclarecer, porém, para o público brasileiro, que, apesar de ter me referido no original apenas à Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, ou à Igreja Presbiteriana Americana, como se apenas uma existisse, trata-se, no trabalho apresentado a seguir, da denominação que, na época da controvérsia entre os Fundamentalistas e os Modernistas (final do Século 19, início do Século 20), se chamava “Presbyterian Church in the United States of America” (PCUSA).

Essa igreja foi devidamente organizada (na forma de Presbitérios, Sínodos e Assembleia Geral) em 1789. Até 1864, teve presença em quase todos os estados americanos, porque, apesar de não ser a única, era a principal igreja presbiteriana do país.

Durante esses 75 anos, havia divisões dentro dessa igreja, a principal sendo entre os grupos designados como “Velha Escola” (Old School), os mais tradicionais e conservadores, e “Nova Escola” (New School), os mais modernos e liberais.

Com a eclosão da Guerra Civil americana (que durou de 1861 a 1865), a PCUSA se dividiu em duas, mas a divisão não foi causada pelas diferenças teológicas entre a Velha Escola e a Nova Escola. A causa da divisão foi a questão da escravatura.

Em 1861, primeiro ano da Guerra Civil, saiu da PCUSA o subgrupo chamado de “Velha Escola do Sul” (“The Southern Old School”). Três anos depois, em 1864, também saiu da PCUSA o subgrupo chamado de “Nova Escola do Sul” (“The Southern New School”). As duas “Escolas” do Sul, a Velha e a Nova, egressas da PCUSA, esqueceram momentaneamente as suas diferenças teológicas e deixaram a política falar mais alto: uniram-se, constituindo a Presbyterian Church in the United Sates (PCUS).

Assim, a partir de 1864, havia duas grandes igrejas presbiterianas nos Estados Unidos, a PCUSA e a PCUS, que passaram a ser chamadas, informalmente, de “Igreja Presbiteriana do Norte” (Northern Presbyterian Church) e “Igreja Presbiteriana do Sul” (Southern Presbyterian Church).

As profundas divisões que a Guerra Civil americana causou na sociedade americana não foram apenas políticas, mas surtiram efeito também na área religiosa, mais especificamente, presbiteriana. A PCUSA, a Igreja Presbiteriana do Norte, que tinha divisões teológicas sérias entre a Velha Escola e a Nova Escola, continuou, por um bom tempo, com essas divisões (que acabaram produzindo a controvérsia que será analisada no trabalho), e, por cima, perdeu os irmãos do Sul, que, para fortalecer a igreja sulista, sublimaram, até certo ponto, suas diferenças teológicas, e uniram a Velha Escola e a Nova Escola.

A controvérsia que eu historio no trabalho que ora traduzo para o Português teve lugar na PCUSA – ou seja, na Igreja Presbiteriana do Norte. A Igreja Presbiteriana do Sul, bem como outras denominações protestantes, também tiveram suas controvérsias e divisões, mas elas não alcançaram as proporções que a luta – pois foi literalmente isso – alcançou na PCUSA, com julgamentos de heresia, expurgos e expulsões, brigas homéricas na Assembleia Geral em que até mesmo a civilidade comum, devida a qualquer pessoa, faltou entre pastores, presbíteros e professores de seminário que, até ali, se consideravam irmãos.

Registre-se, porque o fato é relevante para as controvérsias tupiniquins dentro das igrejas presbiterianas brasileiras, que tanto a “Igreja Presbiteriana do Norte” (PCUSA) como a “Igreja Presbiteriana do Sul” (PCUS) enviaram missionários para o Brasil na segunda metade do Século 19.

Os primeiros missionários a chegarem no Brasil, em 1859, vieram, naturalmente, da PCUSA, ou Igreja Presbiteriana do Norte, visto que a PCUS, a Igreja Presbiteriana do Sul, não estava ainda organizada. Vide a esse respeito o interessante e informativo artigo “Igreja Presbiteriana do Brasil”, publicado na Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_Presbiteriana_do_Brasil. Ashbel Green Simonton (1833-1867) e Alexander Latimer Blackford (1829-1890), casado com a irmã de Simonton, vieram para o Brasil a partir da Igreja Presbiteriana do Norte. Sempre é bom lembrar que Blackford foi quem organizou, em 5 de março de 1865, a Igreja Presbiteriana de São Paulo (hoje a Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo), sendo seu primeiro pastor. Essa igreja, hoje também conhecida como a Catedral Evangélica de São Paulo, fará, portanto, 150 anos no início do ano que vem (2015). Tenho o privilégio de ser membro dela desde 2010, depois de tê-la frequentado com certa regularidade enquanto era aluno do Instituto José Manuel da Conceição (JMC), de 1961 a 1963, quando era membro da IPB (igreja de Santo André, pastoreada por meu pai, o Rev. Oscar Chaves).

Como esclarece ainda o referido artigo da Wikipedia, os primeiros missionários da Igreja Presbiteriana do Sul (a PCUS) a vir para o Brasil foram George Nash Morton (1841-1925) e Edward Lane (c.1837-1892). Seu trabalho concentrou-se no interior de São Paulo, em especial na região de Campinas, SP (onde havia uma colônia americana, composta de americanos do Sul que fugiram da Guerra Civil, que resultou nas cidades de Americana e Santa Bárbara d’Oeste), tendo eles fundado, em 1870, a Igreja Presbiteriana de Campinas. Minha mãe, Edith de Campos, nascida em Campinas, foi membro dessa igreja, enquanto solteira, e meu pai a frequentou, enquanto estudava no Seminário Presbiteriano de Campinas, de 1939 a 1941. Foi nela que meus pais se casaram, em 1942. Na realidade, recebi o nome de Eduardo em homenagem ao neto do missionário Edward Lane, o também missionário, Rev. Eduardo Lane, que fundou o Instituto Bíblico de Patrocínio, em Patrocínio, MG (cidade em que meu pai nasceu), hoje chamado de Instituto Bíblico Eduardo Lane (IBEL). E eu tive o privilégio de trabalhar, durante 28 anos, na UNICAMP, junto do filho de Eduardo Lane e do bisneto de Edward Lane, o médico e presbítero Eduardo Lane Junior, que chegou a ser Reitor do Seminário Presbiteriano de Campinas na década de 60. Vide, a esse respeito, o artigo “Edward Lane” na Wikipedia, no endereço http://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Lane. Na verdade, Eduardo Lane Junior, que meu pai chamava de “Eduardinho”, era o Reitor do Seminário quando dele fui expulso em 1966, oito anos antes de nós dois virmos a ser (bons) colegas na UNICAMP.

São curiosidades e ironias da história – ironias que não acabam aqui…

Expulso do Seminário Presbiteriano de Campinas (por, entre outras razões, esposar ideias teológicas “modernistas” e defender o Evangelho Social) por um bisneto de um dos dois primeiros missionários da Igreja Presbiteriana do Sul dos Estados Unidos no Brasil, eu fui “socorrido” por uma oferta de bolsa completa pelo Seminário Presbiteriano de Pittsburgh (Pittsburgh Theological Seminary – PTS), PA, nos Estados Unidos, da Igreja Presbiteriana do Norte… – a que sobreviveu à controvérsia entre Fundamentalistas e Modernistas expulsando os seus fundamentalistas… Na Igreja Presbiteriana do Norte, nos Estados Unidos, os modernistas ganharam a “briga”. No Brasil, a vitória ficou com os fundamentalistas.

Esclareça-se, ainda, a bem da verdade, e para enriquecer a história, que já no século 20, em 1906, a PCUSA (sem mudar de nome) acolheu a Cumberland Presbyterian Church, uma denominação que havia se formado em 1813, separando-se da PCUSA.

E em 1958, a PCUSA se uniu com uma outra denominação presbiteriana, a United Presbyterian Church of North America (UPCNA), para formar a United Presbyterian Church in the United States of America (UPCUSA).

Quando eu escrevi o trabalho original, em 1968, esta — a UPCUSA — era a igreja que eu frequentava nos Estados Unidos e a controvérsia entre Fundamentalistas e Modernistas havia acontecido em seu seio, visto que ela sucedeu à PCUSA.

Na verdade, o Seminário Presbiteriano de Pittsburgh, no qual fiz o Mestrado, e que me concedeu um diploma de Bacharel em Teologia para suprir o que eu havia deixado de receber no Brasil, em virtude da crise na Igreja Presbiteriana do Brasil, e que, além de tudo, me concedeu uma bolsa completa para fazer o Doutorado na University of Pittsburgh (fundada em 1787), surgiu, em 1959, a partir da fusão de dois seminários que existiam há bastante tempo: o Western Theological Seminary, fundado em 1785, em Washington, PA, perto de Pittsburgh, pertencente à Presbyterian Church in the United States of America (PCUSA), e o Pittsburgh-Xenia Theological Seminary, fundado em 1794, em Pittsburgh, pertencente à United Presbyterian Church of North America (UPCNA). As duas igrejas, que haviam se unido no ano anterior (1958), como dito atrás, resolveram converter em um só os seus dois antigos seminários, oito anos antes de eu chegar a ele.

Cumpre registrar, por fim, que a UPCUSA, a Igreja Presbiteriana do Norte, com as fusões de 1906 e de 1958, e a PCUS, Igreja Presbiteriana do Sul, depois de muita negociação, se reunificaram em 1983, formando a Presbyterian Church (USA) – PC(USA) que é, hoje, de longe, a maior denominação presbiteriana nos Estados Unidos.

Mas em parte em decorrência da controvérsia entre Fundamentalistas e Modernistas, várias outras Igrejas Presbiterianas surgiram nos Estados Unidos, como a Bible Presbyterian Church (ligada ao Rev. Carl McIntire [vide The Death of a Church, Christian Beacon Press, Collingswood, NJ, 1967]), a Presbyterian Church of America (PCA), que subsequentemente mudou seu nome para Orthodox Presbyterian Church, e outras.

Meu pai era um grande admirador de Carl McIntire, que chegou a leva-lo aos Estados Unidos em 1968, enquanto eu escrevia o trabalho que será traduzido a seguir.

O mais completo relato da evolução da Controvérsia Fundamentalista-Modernista que eu conheço é Crossed Fingers: How the Liberals Captured the Presbyterian Church, de Gary North (Institute for Christian Economics, Tyler, TX, 1996). Há uma versão eletrônica (.pdf) do livro, disponível gratuitamente, para quem tiver paciência de navegar pelo site, em http://www.freebooks.com/christian/crossed-fingers/. O livro tem mais de mil páginas.

O curioso título (“Crossed Fingers”, Dedos Cruzados) veio do fato de que os Fundamentalistas acusavam os pastores Modernistas de cruzarem os seus dedos indicador e médio ao responder que acreditavam nas doutrinas da Westminster Confession, por ocasião de sua ordenação… O autor, Gary North, está claramente do lado oposto ao dos Modernistas.

Essa história toda até certo ponto explica por que eu investi tanta energia, no meu primeiro ano letivo no Seminário Presbiteriano de Pittsburgh, estudando o Evangelho Social e a controvérsia entre os Fundamentalistas e Modernistas. Precisava exorcizar de meu sistema o que me havia acontecido aqui no Brasil.

Aqui concluo as estas observações preliminares e passo a transcrever a tradução que fiz do trabalho escrito em 1968 – ano em que o mundo, de certo modo, pegou fogo.

Transcrito aqui em São Paulo, 4 de Agosto de 2014
[as outras partes podem demorar um pouco para aparecer aqui, porque ainda estou no processo de traduzi-las… Peço ao leitor que não se desanime de esperar…]

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