A Controvérsia Fundamentalista-Modernista na Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos – Parte 4

III. Os Antecedentes Diretos Dentro da PCUSA

Não pretendo traçar aqui um esboço da história do Presbiterianismo nos Estados Unidos. Apenas pinçarei alguns acontecimentos da história da Igreja Presbiteriana do Norte (PCUSA) que me parecem ser antecedentes diretos e relevantes da Controvérsia Fundamentalista-Modernista que teve lugar, em sua forma mais acirrada, depois de terminada a Primeira Guerra Mundial.

A Igreja Presbiteriana americana nasceu de duas fontes diferentes, como bem assinala Lefferts A. Loetscher:

“Na história das origens do Presbiterianismo Americano temos duas grandes tradições representadas por dois grupos: um deles contém em seu núcleo elementos oriundos da Escócia e da Irlanda; . . . o outro, elementos originários da Inglaterra, propriamente dita, e do País de Gales, agindo via as colônias da Nova Inglaterra” [36].

A diferença entre essas duas tradições pode ser explicada, de certo modo e até certo ponto, esclarecendo-se que o primeiro grupo se caracteriza por uma concepção de igreja mais do tipo “igreja formal” (high church), que enfatiza formulações teológicas cuidadosas e precisas, um culto bem planejado e estruturado, e uma forma de organização e gestão que privilegia a autoridade e a ordem, enquanto o segundo grupo adota uma visão mais “sectária” da igreja, segundo a qual as manifestações, dentro da igreja, devem ter uma boa dose de espontaneidade, adaptabilidade, quando não de improvisação, levando em conta os impulsos vitais dos crentes [37].

A maior parte do tempo essas duas tradições conviveram em paz, mantendo entre si um “compromisso” que dava espaço adequado e suficiente aos dois grupos. Mas duas vezes surgiram tensões que acabaram causando conflito, separação e cisma. Isso se deu, primeiro, em 1741, entre as facções que se rotularam de “Lado Antigo” (Old Side) e “Lado Novo” (New Side), e, depois, novamente, em 1837, entre a “Velha Escola” (Old School) e a “Nova Escola” (New School) [38]. Na sequência examinarei as questões envolvidas nessas duas divisões.

Neste capítulo [o segundo do trabalho original, o terceiro da versão traduzida], vou examinar alguns incidentes e eventos importantes da história da Igreja Presbiteriana do Norte (PCUSA), que contribuíram, de alguma forma, para a situação caótica que prevaleceu a partir dos anos 20 do Século 20. O primeiro desses eventos é o “Ato de Adoção” de 1729.

1. O “Ato de Adoção” de 1729

O início do Século 18, quando os Estados Unidos não passavam ainda de um conjunto de colônias inglesas, demonstrou um distanciamento cada vez maior entre os presbiterianos da Europa e os da América. Para combater a heterodoxia que elas viam desenvolver-se nas colônias, a direção da Igreja Presbiteriana da Escócia e da Irlanda resolveu exigir que candidatos ao ministério das colônias, como parte das exigências para sua ordenação, explicitassem sua concordância com a Confissão de Fé de Westminster. Muitos pastores americanos do grupo Escocês e Irlandês concluíram que o amplo referencial doutrinário adotado no Sínodo formado em 1716 era um convite à heterodoxia. Assim, seguindo o exemplo que vinha de fora, eles advogaram o endosso formal e explícito das doutrinas da Confissão de Fé de Westminster como conditio sine qua non para a ordenação e mesmo para a participação nos Presbitérios e no Sínodo da igreja nascente [39]. Ficou evidente na medida a crescente insatisfação desses pastores do grupo escocês e irlandês com os pastores do grupo identificado com a Nova Inglaterra, que se opunham a endossos formais e explícitos a confissões, credos e outras declarações relacionadas com a estrutura e a organização da igreja [40].

Depois de muita discussão, os dois grupos chegaram, em 1729, a um compromisso que recebeu o nome de “Ato de Adoção”. Segundo ele, apesar de o Sínodo “não assumir ou reivindicar autoridade de impor uma declaração de fé sobre as consciências de outras pessoas”, decidiu-se o seguinte:

“Todos os ministros deste Sínodo, ou que venham, a partir desta data, a ele ganhar admissão, declararão seu acordo com a Confissão de Fé e com os Catecismos Longo e Curto aprovados na Assembleia de Teólogos de Westminster, e sua aprovação desses documentos, deixando claro que os consideram, em todos os artigos essenciais e necessários, formulações adequadas de sólido sistema de Doutrina Cristã, e que adotam a mencionada Confissão e os mencionados Catecismos como a confissão de nossa fé. E, também, fica acordado que todos os Presbitérios que se situam dentro dos limites deste Sínodo sempre tomarão cuidado para que nenhum candidato ao ministério seja admitido a essa função sagrada a menos que declare estar de acordo com todos os artigos essenciais e necessários desses documentos, seja pela subscrição formal deles, seja por declaração verbal de seu assentimento a eles, conforme achar melhor” [41].

O leitor atento provavelmente concluirá que, apesar de todo o trabalho, esse Ato de Adoção não vai funcionar – porque a expressão “artigos essenciais e necessários”, duas vezes mencionada no texto citado, não é definida em nenhum lugar, sendo deixada convenientemente vaga – única forma de se chegar a um acordo. Essa expressão vai causar muito problema no futuro.

Como se não bastasse a natureza vaga da expressão destacada, o caráter “compromissório” do Ato de Adoção fica evidente no texto que imediatamente segue o que foi citado (e onde a expressão “artigos essenciais e necessários” é mais uma vez empregada):

“Caso qualquer ministro deste Sínodo, ou qualquer candidato ao ministério, tiver algum escrúpulo em relação a qualquer artigo ou conjunto de artigos da mencionada Confissão e dos mencionados Catecismos, ele, na ocasião em que lhe for solicitada a subscrição desses documentos ou a declaração de assentimento a eles, fará registro de seus sentimentos para o Presbitério ou Sínodo, o qual, apesar disso, o admitirá ao exercício do ministério dentro de seus limites, e à comunhão ministerial, se o Sínodo ou Presbitério julgar que seu escrúpulo ou erro se refere apenas a artigos não essenciais e necessários da doutrina, do culto e do governo da igreja. Mas se o Sínodo ou Presbitério julgar que o ministro ou candidato erra em relação a artigos essenciais e necessários, o Sínodo ou Presbitério declarará o ministro ou candidato incapaz de comunhão em seu seio” [42].

Como qualquer um com um pouco de sensatez pode perceber, esse acordo soluciona apenas problemas imediatos e é uma bomba de efeito retardado que a qualquer momento pode explodir. No futuro, ele vai causar mais problemas do que soluções, posto que a definição precisa da expressão “artigos essenciais e necessários” é deixada a critério da opinião subjetiva de quem quer que esteja incumbido de julgar a questão.

Vejamos, agora, o Cisma de 1741.

2. O Cisma entre o “Lado Antigo” e “Lado Novo” de 1741-1758

Este cisma foi resultado direto do chamado Grande Avivamento (Great Awakening). Eis o que diz Olmstead:

“Desde o início do movimento do Avivamento, os Presbiterianos viram o esse movimento com sentimentos divididos. O grupo escocês-irlandês, que defendia a subscrição formal à Confissão de Fé e aos Catecismos, de Westminster, não via com bons olhos os avivados, e chegou até mesmo a considerar perniciosos os resultados do movimento” [43].

William Tennent, que, com seus filhos, era uma das pessoas mais ativas no Grande Avivamento [44], havia começado, por volta de 1727, a preparar pessoas para o ministério em sua própria casa, em Neshaminy, PA, vindo construir, em 1735, um edifício de madeira para alojar seus alunos. É quase desnecessário frisar que a ênfase, neste “Seminário de Madeira” (como era chamado), estava na experiência vital de conversão religiosa, não no assentimento a rigorosas formulações verbais de doutrina, como julgava importante o grupo escocês-irlandês, que defendia a existência de um ministério profissional bem formado que se distinguisse do das demais denominações cristãs do país pelo seu preparo acadêmico e intelectual.

Em 1738 foi apresentada ao Sínodo uma proposta que exigia, de qualquer candidato ao ministério, que viesse se apresentar ao Sínodo ou a um de seus Presbitérios, que tivesse curso superior completo, ou, em caso contrário, que se submetesse a um exame de suas ideias conduzido por um comitê do Sínodo [45]. Essa proposta, a despeito de sua aparente sensatez, estava fadada a produzir uma forte reação contrária do grupo que privilegiava, nas características importantes de um ministro, mais a sua experiência religiosa do que o seu desempenho acadêmico e intelectual.

A situação estava tensa quando Gilbert Tennent pregou, em Nottingham, PA, no dia 8 de Março de 1740, seu famoso sermão “O Perigo de um Ministério não Convertido”, que foi publicado imediatamente depois [46]. Esse sermão foi o agente catalítico que provocou um “Protesto” apresentado pelo grupo escocês-irlandês ao Sínodo de 1741, que declarava que, visto que os responsáveis pelo “Seminário de Madeira” tinham quebrado as regras do Sínodo, eles perdiam seu direito de pertencer a ele [47]. O grupo que apoiava o Avivamento resolveu então se retirar do Sínodo, ao mesmo tempo que o grupo que defendia a estrita subscrição à Confissão e aos Catecismos de Westminster decidiu expulsar do Sínodo o Presbitério de New Brunswick, ao qual pertenciam os retirantes e que era o principal foco de avivamento.

O presbiterianismo americano enfrentava sua primeira divisão séria. O Presbitério de New Brunswick recebeu apoio e adesão dos Presbitérios de Nova York e New Castle, e esses três presbitérios formaram o Sínodo de Nova York, que, daquele momento em diante, passou a ser conhecido como o “Lado Novo” (em contraposição ao Sínodo de Filadélfia, que representava, como antes, o “Lado Velho”). O cisma durou até 1758. Nesse ínterim, as tensões que levaram à divisão foram reduzidas, a pressão da provável Guerra Revolucionária começava a se fazer sentir, e esses fatores facilitaram a reunião dos dois lados.

Em 1758 um “Plano de Reunião” foi elaborado e aprovado [48]:

Tratava-se de um plano que combinava admiravelmente os melhores elementos de cada uma das duas tradições. O grupo escocês-irlandês triunfou em sua insistência que tudo fosse feito com respeito à ordem estabelecida. . . . Não deveria mais haver anarquia eclesiástica do tipo daquela que existiu nos momentos que precederam à separação de 1741. . . . Por outro lado, os termos utilizados no plano adotavam algumas das ênfases importantes do grupo avivado: os Presbitérios deveriam examinar os candidatos ao ministério no tocante (entre outras coisas) à sua ‘familiaridade experiencial com a religião’” [49].

Mais uma vez, chegava-se a um compromisso. Visto que nenhum dos dois Sínodos havia abandonado a necessidade de adesão à Confissão e aos Catecismos de Westminster, tudo continuava como antes do cisma. Como se observará no futuro, “a questão do direito do Presbitério ter a decisão final acerca da ordenação de candidatos ao ministério continuou sem decisão” [50]. Essa omissão trará problemas no futuro.

Contudo, naquele momento, a igreja, agora unificada novamente, se dedicou à sua tarefa missionária, e os anos seguintes foram um período de crescimento rápido do Presbiterianismo [51].

3. A Igreja Presbiteriana de Cumberland

Passamos aqui para o Século 18. Um breve relato do que se passou na Igreja Presbiteriana do Norte desde o término do Cisma discutido no item anterior é recomendável.

Durante a Guerra Revolucionária contra os ingleses, os presbiterianos ganharam prestígio em decorrência de sua pronta adesão à causa da Independência americana. Alguns chegaram até mesmo a chamar a guerra de uma “Rebelião Presbiteriana” [52]. Parecia que nenhuma outra igreja estavam tão preparada para lidar com a autonomia política em termos de riqueza, cultura, liderança e número de membros [53].

O nacionalismo do pós-guerra obrigou os presbiterianos, bem como os membros de outras denominações, a se reorganizarem mais adequadamente para enfrentar a nova realidade. No caso da Igreja Presbiteriana do Norte, os dois Sínodos (Filadélfia e Nova York) se tornaram quatro, envolvendo dezesseis Presbitérios. A decisão de fazer uma Assembleia Geral anual foi acatada e ela se reuniu pela primeira vez em 1789 [54]. Com essa reorganização novas mudanças foram exigidas.

Para os propósitos deste texto, que alguns ministros presbiterianos, durante o Segundo Avivamento (Second Awakening), pregaram, principalmente nos Estados sulistas de Tennessee e Kentucky, um tipo de Calvinismo modificado, que – sob a influência dos ideais democráticos da Revolução e da recém-adquirida liberdade – deixava de lado as doutrinas da eleição e da predestinação, colocando mais ênfase na liberdade e na capacidade humana de aceitar ou rejeitar o Evangelho. Eis o que diz Olmstead:

“O grupo avivado percebeu a estrita aderência à doutrina e à prática presbiterianas levaria resultados não muito eficientes na fronteira do trabalho evangelístico. Um apresentação rígida de um ‘Deus de decretos inexoráveis’ seria inaceitável por parte de pessoas que haviam se acostumado à mais plena independência. Igualmente problemática seria a manutenção de elevados padrões acadêmicos para a ordenação de ministros, exigência essa que reduziria sensivelmente a oferta de candidatos. Esses elevados padrões também explicariam a dificuldade dos pastores atuais conseguirem se comunicar eficazmente com as massas ou até mesmo com os membros de suas congregações de nível educacional mais baixo” [55].

Como é fácil depreender, a distância entre os que não tinham simpatia pelo avivamento e os avivados começava novamente a aumentar rapidamente. Diante disso, a maioria dos membros do Presbitério da Transilvânia conseguiu aprovar, em 1801, uma proposta que reduzia as exigências educacionais para a ordenação. Essa decisão causou inconformidade dos membros do Presbitério que foram derrotados e de outros Presbitérios e a questão foi trazida diante do Sínodo de Kentucky, que salomonicamente resolveu dividir o Presbitério da Transilvânia, criando o Presbitério de Cumberland a partir da maioria que havia aprovado a proposta.

Assim, o recém-criado Presbitério de Cumberland passou a ordenar candidatos ao ministério que não eram portadores de curso superior e os pastores assim ordenados em geral pregava uma doutrina mais próxima do Arminianismo do que do Calvinismo clássico… [56] Diante disso o Sínodo de Kentucky criou uma comissão para investigar a situação no Presbitério de Cumberland, em especial a questão dos candidatos ao ministério ordenados sem suficiente preparo acadêmico. A Comissão foi recebida com indisfarçável hostilidade pelo Presbitério de Cumberland, que, mais tarde, negou à Comissão o direito de reexaminar os pastores que, como candidatos, haviam declarados aptos a exercer o ministério pelo Presbitério. O Presbitério se recusou a aceitar a orientação a ele dada pela Comissão e o Sínodo de Kentucky resolveu dissolver o Presbitério colocando suas igrejas e seus pastores, mais uma vez, debaixo da jurisdição do Presbitério da Transilvânia, da qual a maioria deles havia saído [57].

As igrejas e os pastores que haviam constituído o Presbitério de Cumberland resolveram recorrer à Assembleia Geral, mas foram surpreendidos com uma exortação para se submeter à decisão e à autoridade sinodal [58]. Embora alguns pastores e suas igrejas tenham se sujeitado à decisão do Sínodo e permanecido debaixo da jurisdição do Presbitério da Transilvânia, a maioria se revoltou e criou, em 1810, o novo Presbitério de Cumberland, que passou a se constituir uma nova denominação, com sede na Igreja Presbiteriana de Cumberland. No ano de 1829 essa nova denominação realizou sua primeira Assembleia Geral.

A Igreja Presbiteriana de Cumberland cresceu de forma extremamente rápida. Em 1835 tinha 75 mil membros comungantes, reunidos em 35 Presbitérios, que, por sua vez, estavam agrupados em nove Sínodos. Esse crescimento fenomenal continuou durante o período subsequente, atravessando o período da Guerra Civil [59].

Este cisma só foi desfeito no início do Século 20, como se verá no final deste capítulo.

Aqui é possível e necessário constatar que as mesmas questões que haviam anteriormente dividido o Lado Antigo do Lado Novo agora causaram um novo cisma. A incapacidade da Igreja de resolver adequada e definitivamente a situação que causou o primeiro cisma acabou por causar o segundo. E, apesar da saída dos pastores e das igrejas que constituíram a Igreja Presbiteriana de Cumberland, a questão que causou sua saída continuou sem solução adequada dentro da Igreja Presbiteriana do Norte (PCUSA). Isso trará mais problemas no futuro.

Outra questão que trará problemas no futuro é a insatisfação com a rigidez da doutrina calvinista da eleição e predestinação. Haverá, no futuro, tentativas de afasta-la ou de, pelo menos, reduzir a sua importância.

4. O Cisma entre a Velha Escola e a Nova Escola de 1837-1869

Além das questões apontadas nos dois últimos parágrafos da seção anterior, havia outras questões bastante vivas na Igreja Presbiteriana do Norte (PCUSA) no início do Século 19. Uma delas era o chamado “Plano de União” de 1801 [60].

Segundo esse plano, seria possível que crentes presbiterianos e congregacionais constituíssem uma só igreja e chamassem, para pastoreá-la, um ministro de qualquer uma das duas denominações. Também seria admissível que presbíteros das igrejas presbiterianas viessem a ser chamados a atuar em igrejas congregacionais, com direito a voto em todas as questões, a recíproca sendo também verdadeira, mutatis mutandis, pois a presença de representantes das igrejas congregacionais seriam admitidos até mesmo nos Presbitérios.

A proposta de uma relação estreita com a Igreja Congregacional, bastante forte na Nova Inglaterra, inclusive com a presença de pastores e membros congregacionais nas igrejas presbiterianas, fortaleceria o Lado Novo – que, nessa ocasião, já tinha sido rebatizado de Nova Escola – sendo o lado oposto também rebatizado de Velha Escola.

Mas se este Plano de União trazia nova força à Nova Escola, que favorecia mais uma igreja “sectária”, outros desenvolvimentos fortaleceram o lado mais “High Church” da Velha Escola.

Dois pastores, John W. Nevin e John H. Hobart, o primeiro presbiteriano e o segundo congregacional [61], se juntaram, para defender os ideais “High Church[62]. Eles colocavam grande ênfase na ideia da igreja como “Heilsanstalt” – expressão alemã que quer dizer mais ou menos “Instituição (ou Agência) da Salvação”. Havia uma sensação generalizada de que essa noção conflitava com a teologia da Nova Escola, com sua ênfase na liberdade e na decisão humana.

Nos anos 1830 a situação ficou tão séria que até mesmo alguns julgamentos por heresia foram realizados [63]. Em 1837 um novo cisma. As principais causas desse novo cisma – além daquelas que já foram apontas – podem ser classificadas como eclesiológicas, teológicas, e sociológicas.

Do ponto de vista eclesiológico, o grupo da Nova Escola buscava implementar uma visão mais descentralizada – mais “congregacionalizada” – da igreja, enquanto a Velha Escola queria preservar uma visão da igreja mais institucionalizada, centralizada, disciplinada – enfim, uma visão mais “high church[64].

Teologicamente falando, o grupo da Velha Escola tendia cada vez mais para o que pode ser chamado de “teologia confessional” (do tipo que foi representado por Charles Hodge mais tarde). Eles ficaram alarmados diante do que consideravam um precedente muito perigoso, a proposta de mesclar ideias calvinistas e arminianas representada pela pregação de Lyman Beecher, por exemplo, um dos que foram julgados por heresia nos anos 1830. Também havia, entre os partidários da Velha Escola, tendências contrárias ao avivamentismo, como já mencionado na seção anterior. Por outro lado, a Nova Escola, em termos gerais, estava influenciada ainda pela teologia de Jonathan Edwards, com algumas variações, que defendia uma visão mais otimista da natureza humana, que atribuía ao homem um grau elevado de liberdade (livre arbítrio) para decidir acerca do que fazer, podendo livremente optar pela sua salvação [65].

Da perspectiva sociológica, a questão da escravatura não pode ser omitida [66], apesar de o interesse na questão ainda não ter se tornado de grande interesse, porque a campanha abolicionista havia começado apenas um pouco tempo antes – e ninguém ainda imaginava a possibilidade de uma Guerra Civil. Contudo, é inegável que a Nova Escola tinha sua força maior em áreas em que o ideal abolicionista estava se tornando mais influente. Parece que seus membros estavam inclinados a lutar contra a escravatura de forma mais série que os membros da Velha Escola, que tentaram, mais de uma vez, manter a questão fora da Assembleia Geral [67].

Foi com esse pano de fundo que teve lugar a Assembleia Geral de 1837. A Velha Escola havia trabalhado cuidadosamente para obter maioria, conquistando apoio dos mais moderados, e agiu com rapidez para se livrar de seus oponentes. O “Plano de União” de 1801 foi arquivado, três sínodos em Nova York e um em Ohio foram expulsos da igreja, pois estavam muito envolvidos com a Igreja Congregacional, atividades interdenominacionais foram terminadas, foi criado um outro Conselho de Missões Estrangeiras , etc. [68]

Em Agosto do mesmo ano a Nova Escola se reuniu em Auburn, NY, e elaborou o que passou a ser chamado de “Declaração de Auburn” (Auburn Declaration) [69]. Nessa declaração os membros da Nova Escola esclareceram suas posições e formularam pedido oficial de readmissão à Assembleia Geral. O pedido foi recusado. À vista disso, eles imediatamente constituíram uma Assembleia Geral alternativa, sacramentando o cisma. Mais ou menos quatro nonos dos presbiterianos, a partir desse momento, passaram a fazer parte da New School Presbyterian Church, uma nova denominação. A Justiça decidiu que a igreja em que ficaram os membros da Velha Escola (a PCUSA) era a sucessora legal da igreja anterior [70].

Uma questão que pode ser útil para entender melhor os desenvolvimentos futuros tem que ver com o fato de que, antes do cisma, o Seminário Presbiteriano de Princeton (Princeton Theological Seminary) tentou manter uma via media entre as partes em confronto. Contudo, quando a Nova Escola fundou o Seminário Teológico Unido (Union Theological Seminary), em Nova York, no ano de 1836, Princeton foi de certo modo jogado nos braços da Velha Escola – embora com algumas reservas. Dessa data para frente não podemos nos esquecer de que havia dois centros de educação teológica importantes nas mãos de duas Igrejas Presbiterianas no Norte do país: um, Princeton, nas mãos da antiga Igreja Presbiteriana do Norte (PCUSA), a Velha Escola; o outro, Union, nas mãos da Igreja Presbiteriana da Nova Escola, com sede também no Norte do país. Disputas e controvérsias futuras vão envolver essas duas instituições educacionais, que a partir de 1836 passam a se considerar, até certo ponto, como instituições rivais [71].

5. A Reunificação de 1869

De 1839 a 1869 duas igrejas presbiterianas buscavam sua expansão na mesma região, uma, de certo modo, concorrendo com a outra. Durante esse período poderosas forças na vida americana pressionavam as duas igrejas na direção de uma reunificação. A expansão para o Oeste apresentavam novos desafios para as igrejas e elas lutavam para atender a população dos novos territórios. Talvez um dos fatores mais importantes a contribuir para a reunificação que se deu em 1869, porém, foi a Guerra Civil. Pode parecer que as duas igrejas ficariam, em tese, do mesmo lado – o do Norte.

Mas em 1857 a Igreja Presbiteriana da Nova Escola se dividiu a propósito da escravatura, basicamente em linhas geográficas. O impacto aqui não foi tão grande, porque a igreja tinha presença muito mais forte no Norte do país.

Quatro anos depois, em 1861, o mesmo aconteceu com a Igreja Presbiteriana da Velha Escola (a PCUSA). Com essa separação, a PCUSA perdeu a parte sulista da Velha Escola, que era sua ala mais conservadora.

Isto fez com que as diferenças com a igreja da Nova Escola fossem de certo modo reduzidas no Norte.

Em 1864 as duas alas que haviam se separado das duas igrejas com presença maior no Norte se uniram, no Sul, formando [como já se mencionou no primeiro capítulo] a Presbyterian Church in the United States (PCUS) – que ficou, a partir dessa data, conhecida como a Igreja Presbiteriana do Sul [72].

Diante desse quadro, parecia natural que as duas igrejas que, agora, se caracterizavam claramente como Igrejas Presbiterianas do Norte, se reunificassem. É verdade que alguns membros da PCUSA preferiam se reunir com a PCUS, em vez de com a Igreja Presbiteriana da Nova Escola… No final, porém, especialmente por causa da Guerra Civil, que criava uma distância enorme entre o Norte e o Sul, e da questão da escravatura, prevaleceu o ponto de vista daqueles que preferiam a reunificação das duas igrejas do Norte [73].

Em 1867 as duas Assembleias Gerais se reuniram, separadamente, para discutir a questão da reunificação. Terminadas as Assembleias foi apresentado aos Presbitérios de cada uma das igrejas um Plano de Reunificação, que focava, pura e simplesmente, na adoção dos Padrões Westminster [74]. A ausência, no plano, de cláusulas relacionadas a como interpretar e entender os Padrões Westminster facilitava uma decisão favorável das duas igrejas, porque cada uma poderia interpretar e entender a Confissão e os Catecismos como sempre havia feito.

Reuniões especiais foram mantidas ao longo das Assembleias Gerais das duas igrejas em 1869. Anunciou-se que uma maioria expressiva dos Presbitérios de cada uma das denominações havia votado favoravelmente à reunificação. Diante disso, a reunificação teve lugar, finalmente [75]. O dia da “restauração” do casamento foi marcado para Maio daquele ano. Dali em diante se reconstruía, de alguma forma, a PCUSA – embora sem a sua parte sulista, que só voltaria em 1955, quase cem anos depois. Daqui para frente a Igreja Presbiteriana do Sul ficará fora do foco deste trabalho.

Eis o que disse Loetscher a propósito da reunificação:

“Novamente, em 1869, como em 1758, a Igreja Presbiteriana conseguia restaurar, pelo menos em parte, a unidade, mas fez isso sem resolver as diferenças, mas simplesmente ignorando-as e absorvendo-as. Homens que foram denunciados como ‘hereges” em 1837, e que não haviam mudado um iota de seu ponto de vista teológico no ínterim, foram recebidos de volta de braços abertos em 1869, como honrados e queridos irmãos. O resultado, naturalmente, foi que a base teológica da igreja (especialmente da ala Velha Escola) foi alargada e o significado da exigência de subscrição aos Padrões de Westminster foi relaxado. O acordo de cavalheiros de 1869 fez com que ele passassem a tolerar diferentes tipos de Calvinismo, que antes não haviam conseguido tolerar. Com isso, definições claras e taxativas do que significava ser calvinista não seriam levadas em conta na igreja reunificada, e seria cada vez mais difícil proteger o Calvinismo histórico contra variantes que poderiam subverter o seu caráter essencial” [76].

Tal foi a natureza da reunificação. Que problemas não tardariam a aparecer parece altamente provável. É a eles que dedicarei a atenção agora.

NOTAS (Continuação das partes anteriores)

[36]      Lefferts A. Loetscher, The Broadening Church: A Study of Theological Issues in the Presbyterian Church since 1869 (University of Pennsylvania Press, Philadelphia, 1954), p.1. Compare-se também pp.1-2.

[37]     Cp. Loetscher, op.cit., p.1.

[38]    Compare-se Loetscher, op.cit., pp.1-2. Traduzo “old”, no primeiro caso, por “antigo” e, no segundo, por “velho” apenas pela sonoridade das expressões.

[39]     Compare-se M. W. Armstrong, L. A. Loetscher e C. A. Anderson, The Presbyterian Enterprise: Sources of American Presbyterian History (The Westminster Press, Philadelphia, 1956), pp.27-30. Daqui para frente se fará referência a essa utilíssima compilação de documentos como “Enterprise”.

[40]      Compare-se Clifton E. Olmstead, History of Religion in the United States (Prentice-Hall, Englewood Cliffs, 1960), p.152.

[41]       Enterprise, p.31. O texto completo do Ato de Adoção está nas pp.31-32.

[42]    Enterprise, p.32. Comentários sobre esse trecho do Ato de Adoção em Olmstead, op.cit., pp.152-154, e Loetscher, op.cit., p.3.

[43]      Olmstead, op.cit., p.159.

[44]     Compare-se Winthrop S. Hudson, Religion in America (Charles Scribner’s Sons, New York, 1965), pp.63ff.

[45]      O texto da proposta pode ser encontrado em Enterprise, pp.35-36.

[46]  Dificilmente um outro sermão terá causado tanto furor na história do presbiterianismo americano, com a possível exceção do sermão “Será que os Fundamentalistas Vencerão?”, de Harry Emerson Fosdick, pregado quase dois séculos depois na Primeira Igreja Presbiteriana de Nova York, no auge e no calor da Controvérsia Fundamentalista-Modernista, propriamente dita. Ver excertos do sermão de Tennent em Enterprise, pp.40-44.

[47]      Texto da proposta em Enterprise, pp.47-49.

[48]      Texto do plano em Enterprise, pp.65-68.

[49]        Loetscher, op.cit., p.3.

[50]        Ver Minutes of the General Assembly of the Presbyterian Church in the USA para o ano de 1926, Parte I, Filadélfia, PA, p.76.

[51]       Comparem-se Olmstead, op.cit., pp.161ff., Hudson, op.cit., p.70, e Loetscher, op.cit., p.3.

[52]       Cp. Hudson, op.cit., p.112.

[53]       Cp. Hudson, op.cit., p.112.

[54]        Comparem-se Hudson, op.cit., p.112 e Olmstead, op.cit., pp.228ff.

[55]         Olmstead, op.cit., p.305.

[56]         Compare-se Olmstead, op.cit., p.305.

[57]         Compare-se Olmstead, op.cit., p.305.

[58]         Compare-se Olmstead, op.cit., pp.305-306.

[59]         Compare-se Olmstead, op.cit., p.306.

[60]     Ver o texto do plano em Enterprise, pp.102-104. Compare-se Olmstead, op.cit., pp.245ff, Hudson, op.cit., p.113 e Loetscher, op.cit., pp.4-5.

[61]           Compare-se Hudson, op.cit., pp.168ff.

[62]      Ver trechos de escritos de um e de outro em H. S. Smith, R. T. Handy, e L. A. Loetscher, American Christianity – An Historical Interpretation with Representative Documents, Vol. II – 1820-1960 (Charles Scribner’s Sons, Nova York, 1963), pp.75-79 para Hobart e pp.94-100 para Nevin. Referências a este livro serão, daqui para frente, simplificadas na forma “AC-II”.

[63]           Ver Hudson, op.cit., p.164.

[64]            Comparem-se Loetscher, op.cit., p.5 e Olmstead, op.cit., p.313.

[65]     Comparem-se Loetscher, op.cit., p.5, Olmstead, op.cit., p.313, Hudson, op.cit., pp.162ff. Nathaniel Taylor, em um sermão também famoso (“Concio ad Clerum”, de 1828 – excertos em AC-II, pp.29-36), provocou os partidários da Velha Escola a se prepararem para a guerra, pois ele praticamente negou a doutrina do pecado original. Albert Barnes, outro que foi julgado por heresia nos anos 1830, também pregou um sermão (“The Way to Salvation”, excertos em AC-II, pp.146-149), no qual afirmou que o homem não é pessoalmente responsável pelo pecado de Adão, tese que implicava uma negação da “doutrina federal da culpa imputada”, tão cara aos partidários da Velha Escola. Vide, acerca disso, Olmstead, op.cit., p.311-312.

[66]         Comparem-se Loetscher, op.cit., p.6, Olmstead, op.cit., p.313, e Hudson, op.cit., pp.164ff. Verificar também Enterprise, pp.164ff e AC-II, pp. 167ff.

[67]           Compare-se Olmstead, op.cit., p. 313.

[68]           Comparem-se Enterprise, pp.156ff, e Hudson, op.cit., pp.165f.

[69]           Texto em Enterprise, pp.166-171.

[70]        Comparem-se Loetscher, op.cit., pp.5-6, Olmstead, op.cit., pp.313-314, e Hudson, op.cit., pp.164-165.

[71]         Comparem-se Olmstead, op.cit., pp.312-313, e Hudson, op.cit., p.165.

[72]         Compare-se Hudson, op.cit., p.217.

[73]         Cp. Loetscher, op.cit., pp.6-7.

[74]         Cp. Loetscher, op.cit., p.8.

[75]        Ver Enterprise, pp.220-221.

[76]        Loetscher, op.cit., p.8.

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