As Dificuldades dos Luteranos de 1525 a 1555

Ao chegar o ano de 1525 Lutero parecia estar bem… A Bula do Papa que o condenava — Exsurge Domine, de 15 de Junho de 1520 — e o seu banimento do Império ao final da Dieta de Worms — representado pela decisão do Imperador Carlos V no dia 19 de Abril de 1521 — pareciam destinados ao esquecimento. No Castelo de Wartburg, onde ficou escondido pelo Príncipe Frederico da Saxônia, na sequência da Dieta de Worms, ele havia traduzido o Novo Testamento do Grego para o Alemão (publicado em Setembro de 1522). Os conflitos que aconteceram em Wittenberg durante a sua ausência ele fora capaz de controlar, quando voltou para lá, em Março de 1522, desafiando a Bula Papal e a decisão da Dieta de Worms — sempre sob a proteção de Frederico, justamente apelidado de “O Sábio”. A Dieta de Nurenberg, em Março de 1523, decidiu postergar qualquer outra decisão contra ele e qualquer ação com base em decisões tomadas anteriormente. Em Setembro de 1523 um novo papa, Clemente VII, foi escolhido, em substituição a Leão X, que tanto perseguiu Lutero.

Assim, Lutero parecia bem ao chegar o ano de 1525. Casou-se com Katherine von Bora no dia 13 de Junho (apropriadamente, Dia de Santo Antonio). Teve tempo para escrever uma crítica a Erasmo, acerca da questão do livre arbítrio, publicando o seu De Servo Arbítrio (Da Servitude da Vontade). O tom e o conteúdo do trabalho, porém, danificaram permanentemente seu relacionamento não só com Erasmo, mas também com os demais humanistas da Renascença, que lhe eram simpáticos, mas que ficaram escandilizados com o Lutero de De Servo Arbitrio

E aí, talvez, tenham começado os problemas de Lutero. Começou a conquistar inimigos demais. Como se não bastasse ter a Igreja Católica, com o Papa à frente, como inimiga, ele começou a alienar aqueles que, até ali, haviam sido seus amigos.  Os primeiros foram os humanistas renascentistas, liderados pelo grande, brilhante, cordial e simpaticíssimo Erasmo de Roterdam.

Em 1526 a primeira Dieta de Espira (Speyer) se reuniu para decidir, entre outras coisas, o que fazer acerca da Bula Papal e da decisão da Dieta de Worms. Como bons políticos, os dietantes resolveram deixar tudo como estava. A ameaça dos turcos muçulmanos, que derrotaram o rei da Hungria, Luís II, era, para o Imperador, um problema maior do que Lutero e os luteranos. A decisão da Dieta é uma peça fantástica de realismo político. A decisão que deveriam tomar, dissertam os participantes, ficaria mais bem se tomada por um Concílio Geral — ou, então, por uma outra dieta, num futuro não especificado… Enquanto isso, dentro do Sacro Império Romano, ameaçado pelos turcos, todos deveriam procurar “viver, governar e conduzir-se conforme sua esperança e confiança em responder a Deus e a sua majestade imperial”. Beleza pura…  (Vide Williston Walker, História da Igreja Cristã, 3a. edição, p. 514).

Três anos depois, em 1526, a situação político-militar tendo melhorado, Carlos V resolveu convocar outra dieta — também para ter lugar em Espira (Speyer). Os príncipes luteranos, meio tranquilos, achando que tudo iria caminhar como antes, foram para a dieta meio despreparados — e levaram uma sova. Os católicos, que estavam em maioria, e muito bem preparados, decidiram que não poderia haver mais nenhuma mudança eclesiástica no Império (isto é, católico virando protestante, era o que queriam dizer). Além disso, declararam os majoritários católicos que o culto romano ficava legalizado e, portanto, era permitido em todos os lugares do Império, até mesmo em regiões governadas por príncipes (ou reis) luteranos. Por fim, restituíram às autoridades católicas e às ordens monásticas os bens (propriedades) que lhes haviam sido confiscados e explicitaram que nada as impedia de desfrutarem plenamente de seus direitos de propriedade e de sua liberdade de culto. Enfim: as igrejas territoriais luteranas, criadas com base no princípio de que, dentro de um território, todo mundo seguia a religião do governante (cujos regio, ejus religio), estavam abolidas. (Cf. Walker, p. 516).

Aos protestantes só coube o direito de espernear (jus sperniandi, como se diz). Lavraram um protesto formal — chamado, apropriadamente, de Protestatio, no dia 19 de abril de 1529. Por causa desse protestatio passaram a ser conhecidos como… “os protestantes”… Está aí a origem do nosso nome, de que alguns de nós, como eu, tanto nos orgulhamos. (Vide Walker, op.cit., loc.cit.)

Numa situação assim, é preciso não cultivar divisões, não é mesmo?

Mas não foi isso que Lutero fez. Philip de Hesse, o Eleitor do Palatinado, luterano, preocupado com a divisão que estava havendo entre os luteranos e os reformados de Zurique, na Suíca, liderados por Ulrico Zuínglio (Ulrich Zwingli), em especial sobre a questão da Eucaristia, convocou um encontro, em Marburg, no mesmo ano de 1529, para tentar aplainar as diferenças. Participaram Lutero e Felipe Melanchton pelos Luteranos, Zuínglio por Zurique, mais Martinho (Martin) Bucer, representando Estrasburgo, e João (Johannes) Oecomlampádio, representando Basiléia. Lutero se recusou a fazer qualquer acordo. Ele achava que estava certo, porque a Bíblia diz “este pão É o meu corpo, este vinho É o meu sangue”, e não diz que o pão e o vinho simplesmente REPRESENTAM ou SIMBOLIZAM o corpo e o sangue de Cristo, como pretendia Zuínglio. Fim de conversa.

O Imperador, impaciente, convocou uma nova dieta para Augusburg, em 1530, e pediu a todos, protestantes (agora se pode chama-los assim) e católicos, para apresentarem propostas de “documentos de união”, de textos que pudessem conquistar a aprovação tanto de uns como de outros e, assim, terminar a briga.

Melanchton produziu o texto que veio a ser chamado de Confissão de Augsburgo. Zuínglio, que apesar de não ser alemão, pois era suíço, mas falava alemão, também apresentou um documento meio fraquinho, sob o título Ratio Fidei (Razão da Fé). E quatro cidades importantes, lideradas por Estrasburgo (Bucer), todas simpáticas a Zuínglio, apresentaram um texto que ficou conhecido como a Confissão Tetrapolitana. Novamente, luteranos e zuinglianos não conseguiram chegar a um texto comum. Os católicos, por sua vez, não apresentaram nada mas rejeitaram as três propostas. O Imperador, meio desesperado, chegou a uma brilhante conclusão: nomeou uma comissão. Apesar do espírito cordato de Melanchton, os luteranos, influenciados pela inflexibilidade de Lutero, protestaram que não se havia dado suficiente atenção para a Confissão de Augsburgo. Por fim, a dieta tomou a decisão de que um concílio, a ser convocado para dentro de um ano, resolveria a questão. Melanchton aproveitou e escreveu uma Apologia da Confissão de Fé de Augsburgo, que é um texto bem mais interessante do que a própria confissão original. (Vide Walker, pp. 534-536).

Os luteranos, depois de duas derrotas e dois protestos, aprenderam a lição. Criaram, em 1531, uma liga de príncipes protestantes dedicada a proteger as regiões protestantes, a chamada Liga de Schmalkalden (Cp. Walker, p.536).

Diante disso, o Papa, que temia um Concílio Geral, e o Imperador, que estava a fim de ter sossego, decidiram entrar em clima de pacificação. A morte de Zuínglio (no campo de batalha), em 1531, tornou mais fácil que seus aliados se aproximassem dos luteranos. Não se pode desconsiderar, também, o medo que todos tinham dos radicais que já haviam provocado a Guerra dos Camponeses, que produziu um número enorme de mortos. Luteranos e católicos se uniriam a qualquer tempo para conter os radicais. Além de tudo o mais, os turcos muçulmanos haviam chegado a Viena. Diante de tudo isso, o Imperador e a Liga de Schmalkalden, naturalmente, fizeram um acordo, em 1532: a chamada Paz de Nurenberg. Por esse acordo, ficariam em paz, católicos e protestantes, até um Concílio Geral ou uma próxima dieta. (De novo?). (Vide Walker, p.537).

De 1532 até 1555, quando foi convocada a dieta seguinte, também em Augsburgo, tudo ficou em paz relativa dentro do Império. Lutero morreu em 1546 e Carlos V começou a abdicar da direção das diferentes partes do seu império em 1555 (terminou no ano seguinte e morreu em 1558). Os dois grandes atores do drama vivido no Império desde 1521 (Worms), estavam fora de jogo em 1555. Um, Lutero, realmente fora do jogo, morto. O outro, Carlos V, praticamente fora de jogo, tendo aberto mão de seu império, em favor de seu irmão, e estando prestes a morrer.

Na dieta de Augsburgo, em 1555, celebrou-se a chamada Paz de Augusburgo, que novamente consagrou a solução que ficou definitiva no Império Alemão: católicos e alemães teriam direitos iguais e viveriam em paz no Império, cada um em seu território, a religião do território sendo determinada pela religião do seu governante: cujus regio, ejus religio: qual for a religião do rei, tal será a religião dos súditos (desde que, naturalmente, elas sejam as religiões católicas e luteranas. Zuinglianos, Calvinistas, e, naturalmente, os detestados Anabatistas, não estão cobertos pelo acordo.) 

Mas, a essas alturas, os Calvinistas nem precisavam fazer nenhum acordo. A reforma deles, iniciada na Suiça, já havia se tornado internacional, enquanto luteranos e católicos brigavam entre si.

Em São Paulo, 27 de Agosto de 2014. 

 

 

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