Principais Doutrinas de Lutero – Versão 2

[Nova versão de um post (mesmo título, mas “Versão 1″) transcrito aqui em 14/8/14. Esta nova versão é mais completa, está em ordem diferente, e contém algumas pequenas mudanças em relação à versão de 14/8/14. Favor levar esta versão em consideração, e não a primeira — embora elas não se contradigam]

1. A Autoridade Exclusiva da Bíblia (Sola Scriptura) 

Dentro da Igreja Romana aceitavam-se várias fontes de autoridade, entre elas a Bíblia, mas todas elas estavam subordinadas à chamada função Magisterium da Igreja, que, em resumo, dizia que a própria igreja é a principal fonte de autoridade, e, dentro da igreja, a hierarquia clerical, da qual o Papa é o pontífice.

Desta forma, temos, na Igreja Romana, o reconhecimento da autoridade da Bíblia, dos Pais da Igreja, dos Concílios, da Tradição (mesmo que não respaldada pela Bíblia, pelos Pais da Igreja, e pelos Concílios), dos Pronunciamentos Papais (Bulas, Encíclicas, etc.) — mas tudo isso fica subordinado à função Magisterium da Igreja, que acaba se resumindo na Autoridade Papal.

Assim, dentro da Igreja Romana, é o Papa que, em última instância:

  • interpreta a Bíblia;
  • determina que pronunciamentos de quais Pais da Igreja carregam autoridade;
  • convoca Concílios, promulga ou não suas decisões, e, uma vez promulgadas, as interpreta;
  • seleciona as Tradições da Igreja que vão ser levadas a sério;
  • decide se vai emitir uma nova Bula ou Encíclica reinterpretando, ou mesmo tornando sem efeito, pronunciamentos de Papas anteriores.

Lutero rejeita todo esse esquema e coloca em seu lugar apenas  a Bíblia, as Escrituras Sagradas (Sola Scriptura).

É importante registrar que, ao rejeitar todo esse esquema de autoridade, Lutero rejeita, basicamente, a função Magisterium da Igreja, a autoridade da Igreja (vale dizer, Papa, Concílios, Pais da Igreja, etc.) de interpretar a Bíblia. A Bíblia, assim, é a única autoridade.

Mesmo a razão humana ou a experiência humana (religiosa ou mística) não têm autoridade para Lutero à parte da Bíblia. Se a razão humana ensina algo contrário às Escrituras, ou mesmo independente delas, a razão deve ser rejeitada. De igual forma, a experiência humana (experiências religiosas ou experiências místicas, visões, revelações individuais, etc.) deve se submeter à autoridade das Escrituras.

2. A Interpretação das Escrituras

Embora Lutero faça afirmações sobre a autoridade da Bíblia que pareçam indicar que ele acreditava que o sentido daquilo que a Bíblia narra, proclama, e ensina seja cristalinamente claro e indiscutível, e, portanto, manifesto e evidente,

Eis o que diz Alister E. McGrath, A Revolução Protestante, p.209:

“O Protestantismo, em sua fase formativa, caracterizava-se pela crença – uma crença radical e libertadora, ainda que perigosa – de que a Escritura é clara o suficiente para que o cristão comum a entenda e a aplique sem necessidade de ter uma educação clássica, experiência filosófica ou teológica, orientação clerical ou tradição eclesiástica, crença essa fundamentada na expectativa confiante de que as passagens difíceis seriam esclarecidas pelas mais claras”.

 Lutero, como bom teólogo, porém, sabia que o sentido daquilo que a Bíblia diz nem sempre é manifesto e evidente.

 A Igreja Romana já havia consagrado, na época de Lutero, um método de interpretação bíblica — apelidado de “Quadriga” (nome de uma carruagem de quatro rodas) — que Lutero certamente não desconhecia. Segundo esse método, há quatro níveis em que se pode  e deve interpretar a Bíblia:

  • Literal: se nada o contraindicar, deve-se interpretar a Bíblia literalmente, segundo o sentido que se considera “natural” do texto

O sentido literal tem primazia, para Lutero. Se, porém, o sentido literal não é claro, ou sugere algo que parece contradizer o que outra passagem da Bíblia diz, ou que, de alguma forma, sugere uma heresia ou uma imoralidade, deve-se pressupor que o que é dito ali deve ser interpretado não-literalmente, porque tem um sentido mais profundo do que o literal (sensus plenior ou sensus spiritualis). Neste caso, o texto deve ser interpretado num desses sentidos (o que fizer “mais sentido”):

  • Alegórico: como contendo um sentido teológico ou doutrinário (relativo ao que se crê) mais profundo através de símbolo, metáfora, analogia ou outra figura de linguagem — também, por isso, chamado de simbólico, metafórico ou analógico;
  • Anagógico: como contendo um sentido (não-literal) relacionado à esperança cristã (isto é, relativo ao que se espera);
  • Tropológico: como contento um sentido (não-literal) moral (relativo ao que se deve fazer) “escondido”, muitas vezes numa imagem poética ou em palavras que, se interpretadas literalmente, seriam inaceitáveis (“os montes saltaram como carneiros, e as colinas, como cordeiros” – Salmo 114:4).

 [Vide Alister E. McGrath, A Revolução Protestante, p. 35; cp. pp. 223-224. Na verdade, todo o capítulo 9, “A Bíblia e o Protestantismo, é relevante – pp. 201-239. Vide também todo o capítulo 6 de outro livro de Alister E. McGrath, Reformation Thought: An Introduction. Vide também ainda um outro livro de Alister E. McGrath, Origens Intelectuais da Reforma, capítulos 4 (“As Escrituras: Tradução, Texto e Tradição”) e principalmente 5 (“A Interpretação das Escrituras”), pp. 123-150 e pp. 151-167.]

Segundo McAlister ( Origens Intelectuais da Reforma, p. 152), Lutero usou esse “método quádruplo” de interpretação em seu comentário aos Salmos, elaborado quando ainda era bem jovem, de 1513-1515, e estava começando sua carreira de professor de teologia bíblica na Universidade de Wittenberg.

Como Lutero deixa claro em sua brilhante e comovente manifestação na Dieta de Worms (1521), ele só abandonaria seus pontos de vista (considerados heréticos pela Igreja Romana) se fosse convencido de que eles contrariavam as Escrituras. “Convencer” é um processo racional. Por isso ele diz: “A menos que seja condenado pela Escritura E pela razão clara (plain)…” ele não abandonaria suas ideias e permaneceria fiel à sua consciência – porque não é nem certo nem seguro ir contra à consciência [vide Roland H. Bainton, Here I Stand: A Life of Martin Luther, cap. 10).

O que ele afirma, aqui, é que o indivíduo – não mais a Igreja – é responsável perante Deus e a sua consciência pela interpretação que ele faz do texto das Escrituras – interpretação essa na qual ele deve aplicar a sua razão. Esta é, para Alister E. McGrath, a “ideia perigosa” que Lutero introduz no Cristianismo, e que iria causar, no Protestantismo, a proliferação de cismas, denominações, e subdenominações. O título no original do livro A Revolução Protestante é Christianity’s Dangerous Idea.

Se a interpretação da Escritura de um crente, em sua função sacerdotal (sacerdócio universal dos crentes) conflita com a interpretação de outro, duas saídas são admissíveis:

  • A saída sincrônica de, através do debate, buscar um consenso, aprender colaborativamente com os contemporâneos — razão pela qual Lutero não só aceitava, mas buscava debates;
  • A saída diacrônica de, através da leitura dos Pais da Igreja, encontrar respaldo para a interpretação que se adota – razão pela qual Lutero era leitor respeitoso dos Pais da Igreja, em especial de Agostinho, que ele considerava o maior deles, chegando até mesmo a afirmar que, para ele, a Bíblia e Agostinho tinham autoridade.

[Vide, a esse respeito, Alister E. McGrath, A Revolução Protestante, pp. 211-212.]

3. A Justificação pela Graça (Sola Gratia)

Lutero não chegaria a colocar ênfase na doutrina da Justificação pela Graça (Sola Gratia), se não tivesse enfatizado, antes, a autoridade exclusiva da Bíblia e o direito do crente de interpreta-la sem a mediação da Igreja, através do Papa, dos Concílios, dos Pais da Igreja, da Tradição. Vimos, porém, que, no caso de divergência na interpretação da Bíblia entre os crentes, Lutero admitia o recurso aos Pais da Igreja, em especial a Agostinho.

Como cristão e teólogo, a obsessão de Lutero era com a questão: “O que devo fazer para ser salvo?”

Lendo a Bíblia, e refletindo sobre ela, e sendo um monge agostiniano, que, portanto, tem em Agostinho a figura mais importante, fora da Bíblia, Lutero chegou,na procura de uma resposta bíblica para essa pergunta, a uma posição, mais uma vez, muito diferente daquela da Igreja Romana.

Contra a Igreja Romana Medieval, que respondia a essa pergunta com “participação nos Sacramentos”, ocasião em que se recebe a graça divina, e “boas obras”, em que se conquistam méritos para a salvação, Lutero defendeu a tese de que o ser humano, por causa da Queda de Adão, no Éden, foi “totalmente corrompido”, e, portanto, é totalmente incapaz de fazer qualquer coisa, por mínima que seja, para sua salvação.

Felizmente, segundo Lutero, Deus intervém e, exclusiva e totalmente pela sua graça (Sola Gratia), sem qualquer participação do homem, justifica o pecador, e, assim, o perdoa, sem qualquer participação ou concorrência ou sinergismo nesse ato do beneficiado.

“O justo vive da fé” — isto é, o homem é justificado pela fé.  A salvação é um “dom gratuito” de Deus.

Mas nem mesmo a aceitação dessa graça, por parte do homem, através da fé, ele consegue fazer: até a fé é um dom divino (e, por conseguinte, um milagre).

Por causa disso, o dom da graça é irrecusável ou irresistível por parte daqueles a quem é destinado.

4. A Servitude da Vontade (De Servo Arbitrio), a Eleição e a Predestinação

Decorre do que foi dito no item anterior que a vontade humana, no tocante à opção pela salvação, é, por causa do pecado original, serva ou escrava de Satanás, sendo incapaz de escolher a salvação. Esta vem exclusivamente pela graça – e até a fé é um dom de Deus, não uma realização do ser humano.

Mas se o dom da graça (que  inclui o dom da fé) não é dado a todos, não há outra saída a não ser defender as doutrinas da eleição e da predestinação no sentido duplo: para a salvação e para a condenação eterna.

Assim, as doutrinas da servitude da vontade, da eleição e da predestinação se tornam virtualmente inarredáveis quando se aceita a exclusividade do Sola Gratia e se defende a tese de que a graça é irrecusável e irresistível.

5. O Sacerdócio Universal, o Temporal e o Eterno, o Secular e o Profano

Ao afirmar a autoridade exclusiva da Bíblia, o direito de o crente interpreta-la por si mesmo, e, assim, contestar e rejeitar a função mediadora da Igreja, do Papa, dos Concílios, da Tradição (e, por conseguinte, da Virgem Maria, dos Santos), e do Clero, Lutero acabou sendo obrigado a aceitar quatro corolários doutrinais importantes:

Primeiro, a tese (bíblica) do sacerdócio universal dos crentes. E, se todos os crentes são sacerdotes, não há, a fortiori, distinção essencial entre clero e laicato. A diferença que existe entre um clérigo e um leigo é uma distinção funcional apenas – de ofício.

Segundo, se o crente é sacerdote, seu ofício (sua função na sociedade), ainda que totalmente secular, deve ser visto como um chamado ou uma vocação, tão digna e importante quando o chamado ou a vocação do clérigo ou mesmo do Papa.

Terceiro, na prática, essas duas doutrinas, a do sacerdócio universal dos crentes, e do ofício (ainda secular) como chamado e vocação, acabam por implicar, na prática, uma terceira, a insignificância da distinção entre o espiritual e o secular. Com isso, o secular ganhou enorme importância, por que é no mundo, não fora dele, que o cristão deve viver a vida cristã, e sua santificação acontece no mundo, não fugindo do mundo (para mosteiros e conventos).

Quarto, e como conclusão natural, Lutero nega que o Papa, suposto chefe do poder espiritual, tenha qualquer ascendência sobre os detentores do poder secular. Infelizmente, em parte em deferência aos príncipes alemães que o defenderam, Lutero, em vez de defender a separação entre a igreja e o estado, como vieram a fazer os protestantes americanos, quando a Reforma chegou aos Estados Unidos, deu força ao estado – o poder temporal, resolvendo, em parte, o seu conflito com o Papado, mas preparando o estágio para o lastimável apoio ao Nazismo que a Igreja Luterano veio dar no século 20.

Em São Paulo, 27 de Agosto de 2014

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