A Filosofia de Paul Tillich

[Transcrito: vide fonte abaixo]

A filosofia de Paul Tillich tem como foco a realização de significado (meaning-fulfillment) em situações concretas em todas as áreas da vida. Embora muitas das formulações que ele faz dessa filosofia revelem a influência de movimentos intelectuais modernos, suas raízes mais profundas devem ser buscadas na compreensão da existência humana, e sua realização em situações concretas, que é apresentada na tradição judaico-cristã.

Essa compreensão da existência humana pode ser resumida em três axiomas bastante familiares:

  • A existência humana é essencialmente boa e una, mesmo que essa bondade e unidade não se revelem consistentemente nas formas concretas em que essa existência se manifesta (afirmação que se expressa, mitologicamente, na doutrina da Criação do mundo e do homem por Deus — que, depois de cria-los, viu que era tudo muito bom);
  • Apesar de sua natureza essencialmente boa e una, a existência humana revela uma contradição (afirmação que se expressa, mitologicamente, na doutrina da Queda, que não precisa, naturalmente, ser aceita como um evento histórico, mas, sim, ser vista como o reconhecimento de que há uma clivagem ou cisão que perpassa o espírito humano e a sociedade que o homem criou);
  • A confiança de que essa clivagem ou cisão, que quebra a bondade e a unidade essenciais, pode ser restaurada através de um poder criativo inexaurível (afirmação que se expressa, mitologicamente, na doutrina da Redenção).

Essa compreensão da existência humana, quando corretamente apreendida, implica uma filosofia da história. Isso quer dizer que a expressão e apreensão desses três axiomas se faz através da história. É na história, inclusive no “aqui e agora” do presente, que temos experiência da realização de significado — e de sua natureza contraditória. É na história que se revela o poder crítico e criativo da existência humana. É na história que temos a oportunidade de confrontar as demandas do incondicional, porque é nela que confrontamos também os poderes demoníacos que buscam aprofundar a clivagem e a cisão em nossa existência pessoal e social, e que temos, assim, a oportunidade de vence-los, à medida que atendemos às demandas do incondicional por justiça, amor e beleza. Nesse atendimento nos movemos na direção da realização de significado na vida pessoal e social.

As possibilidades da existência humana não são efetivamente conhecidas até que, pela fé, as apreendemos através da participação apaixonada nas lutas da história. Em outras palavras, a atitude existencial implícita na demanda incondicional por essa participação exige que o sujeito venha a conhecer a condição humana apenas nesse processo em que o pensar e o ser se fundem na vida criativa do espírito. Esse processo exige decisão — e, como toda decisão, envolve risco.

Quando o homem, ou uma instituição (como uma igreja), não dirige seu “ultimate concern” (fé) para esse tipo de participação no aqui e agora da história, ele perde uma oportunidade, que não se repete, de expressar significado na história. Em outras palavras, perde um kairós. Mas apenas a ação ou participação não é suficiente: ela precisa ser acompanhada de uma decisão pelo incondicional. Se não for assim acompanhada, o resultado da ação ou participação pode ser infrutífero ou até mesmo demoníaco.

[Tradução adaptada, feita por Eduardo Chaves, de parte de um ensaio de James Luther Adams, com título de “Tillich’s Concept of the Protestant Era”, publicado em Paul Tillich, The Protestant Era (University of Chicago Press, 1948, pp. 309-311].

Transcrito aqui em São Paulo, 11 de Setembro de 2014

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