As Reformas Radicais

Este artigo tem dois objetivos básicos:

  • Primeiro, caracterizar o que é inadequadamente chamado de a “Reforma Protestante do Século 16”, na Europa Central e nas Ilhas Britânicas, como parte de um fenômeno mais abrangente de “Reformas Religiosas”, que abrangeu (ainda que, inicialmente, meio a contragosto) até mesmo a “Reforma Católica” do Século 16, anteriormente chamada simplesmente de “Contra-Reforma”, como se não passasse de uma reação a uma série de ações que, tendo começado nos Séculos 14 e 15, com John Wycliff e Jan Hus, e teve continuidade no Século 16 com (para citar apenas os dois principais) Lutero e Calvino;
  • Segundo, e principal, caracterizar o conjunto de reformas que postula a drástica separação entre Igreja e Estado, e que hoje é conhecido como as “Reformas Radicais”, como um movimento importante, embora bastante diverso, que trouxe importantes contribuições para o desenvolvimento do Cristianismo, apesar de perseguido tanto pela Igreja Católica como pelas igrejas criadas pelas “Reformas Magisteriais” (as que criaram Igrejas Protestantes à sombra do poder secular).

É isso. Esta versão do artigo é uma revisão de um artigo escrito e publicado em 2014 para uso de meus alunos de História da Igreja II (Reforma: 1450-1650) na Faculdade de Teologia de São Paulo da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (FATIPI)

1. As Reformas Religiosas na Europa Central e nas Ilhas Britânicas no Século 16

Tradicionalmente se falava-se simplesmente em “Reforma Protestante do Século 16”. Hoje em dia costuma-se falar em várias “Reformas Religiosas” que tiveram lugar na Europa Central e nas Ilhas Britânicas ao longo do Século 16 (e que se ligam a movimentos precursores nos dois séculos anteriores), e nem todas elas foram Protestantes, no sentido estrito do termo. Pelo menos uma delas, a “Reforma Católica” (antigamente chamada de “Contra-Reforma”), claramente não foi Protestante. Também há quem questione (a meu ver, infundadamente) que a “Reforma Anglicana” seja Protestante. E, finalmente, há  um conjunto de outras, as chamadas “Reformas Radicais”, que preferem ser claramente diferenciadas das “Reformas Protestantes” acerca das quais não há dúvida de que sejam Protestantes. Neste último caso, o das “Reformas Radicais”, há quem opte por chama-las de “Reformas Evangélicas” em vez de “Reformas Protestantes” — mas a expressão é problemática, porque também as “Reformas Protestantes” se consideram “Reformas Evangélicas”. [Daqui para frente paro de usar aspas em termos e expressões que as justifiquem E que já foram mencionados anteriormente.]

Uma outra forma de diferenciar as diversas reformas é dividindo-as entre “Reformas Magisteriais” e “Reformas Não-Magisteriais”. Nessa hipótese, todas as Reformas Protestantes, incluída nessa categoria a Reforma Anglicana, bem como a Reforma Católica, seriam Reformas Magisteriais — já se aludiu ao sentido dessa expressão e ele será discutido em mais detalhe adiante. Somente seriam Reformas Não-Magisteriais aquelas conhecidas como Reformas Radicais.

O quadro ficaria assim:

REFORMAS MAGISTERIAIS

  • A Reforma Alemã (Lutero, Melanchton)
  • A Reforma Suíça (Zuínglio, Bullinger, Ecolampádio)
  • A Reforma Estrasburguiana (Bucer)
  • A Reforma Genebrina (Calvino, Beza) [Genebra não era parte da Suíça à época]
  • A Reforma Anglicana (Cranmer)
  • A Reforma Escocesa (Knox)
  • A Reforma Católica (Concílio de Trento, Itália)

REFORMAS NÃO-MAGISTERIAIS (RADICAIS)

  • A Reforma Anabatista
    • Evangélica
    • Moderada
    • Revolucionária
  • A Reforma Espiritualista
    • Evangélica
    • Mística / Contemplativa
    • Intelectual
  • A Reforma Racionalista
    • Evangélica
    • Cética
    • Unitária / Anti-Trinitária

2. As Reformas Radicais e as Reformas Magisteriais

O termo “Radical” vem de “Raiz”. A expressão Reforma Radical quer se referir, por contraste, à Reforma Magisterial, que, segundo os radicais, não remete,  de  fato, a despeito de toda sua fala acerca do Sola Scriptura, às verdadeiras raízes da tradição cristã — isto é, os Evangelhos — porque acaba parando em Agostinho (que, por mais paulino que seja, é Tradição, e não Escritura…). Por buscar as raízes Evangélicas do Cristianismo, as Reformas Radicais acabam tendo, em suas três categorias, uma subcategoria Evangélica.

Segundo os Reformadores Radicais, os principais condutores das chamadas Reformas Magisteriais (Martinho Lutero e Felipe Melanchton [em parte da Alemanha], Ulrico Zuínglio e Henrique Bullinger [em Zurique, na Suíça Alemã], João Ecolampádio [na Basiléia, na Suíça Alemã], Martinho Bucer [na Cidade Imperial de Estrasburgo],  João Calvino e Teodoro Beza [na Cidade Imperial de Genebra, em partes da Suíça Francesa e em partes da França],  Tomás Cranmer [na Inglaterra] e João Knox [na Escócia], bem como o Concílio de Trento [realizado na Itália, mas supostamente “ecumênico”, no sentido Ocidental, não Global) não foram suficientemente às raízes — isto é: não foram suficientemente radicais. As Reformas Magisteriais só teriam promovido “Meias Reformas”, “Reformas Meia-Boca”, que teriam deixado a tarefa reformadora inconclusa, nisso demonstrando incoerência.

A incoerência estaria principalmente no fato de que, embora defendessem a autoridade exclusiva da Bíblia (Sola Scriptura), os Reformadores Magisteriais aceitaram doutrinas que, segundo os Reformadores Radicais, não eram bíblicas, entre elas:

  • Aceitação do vínculo entre a igreja e o poder secular (que permitiu a criação de “Igrejas Territoriais” ligadas a “Magistrados”, de onde teria vindo o nome “Magisterial”)
  • Defesa do batismo de crianças
  • Grande pressão, que chegou a ser coação, na direção da uniformidade de doutrina, crença e conduta (ortodoxia)
  • Admissão do recurso à violência (mesmo que só em autodefesa) e a consequente anuência à participação do cristão em guerras (tendo Zuínglio morrido em uma delas)

Em contraposição, os Reformadores Radicais defendiam, em princípio:

  • A desvinculação e total separação entre a igreja e o estado
  • O batismo apenas de adultos, mediante arrependimento e crença na salvação em Cristo, pela graça (sola gratia), mediante a fé (sola fide), algo que crianças pequenas não poderiam fazer
  • A liberdade de consciência, a diversidade de crenças e práticas, e a tolerância
  • O pacifismo e a não-resistência em contextos envolvendo violência

Alguns autores têm se referido à Reforma Radical como sendo a “Ala Esquerda da Reforma” (Roland H. Bainton e John T. McNeill, por exemplo). Mas essa expressão sugere uma conotação política no movimento que nem todos os seus grupos tiveram. A expressão “Reforma Radical” é preferível, como se justificará adiante.

Apesar da afirmação de que as Reformas Radicais são pacifistas e opostas à violência, defendendo a liberdade de consciência, a diversidade de crenças e práticas e a tolerância, houve um grupo revolucionário, não só disposto ao uso da violência, mas que dela fez amplo uso, que era estimulado e conduzido por reformadores que, em todos os outros quesitos, eram Radicais. Esse grupo revolucionário causou enorme estrago à reputação das demais categorias e subcategorias das Reformas Radicais, manchando-as até hoje.

[Vide Alister E. McGrath, Teologia: Sistemática, Histórica e Filosófica — Uma Introdução à Teologia Cristã (Shedd Publicações, 2005), pp. 100-101]

3. O Apelo à Autoridade Exclusiva da Escritura

É interessante registrar, em relação ao princípio de que apenas a Bíblia tem autoridade sobre a fé cristã (Sola Scriptura), duas interpretações diversas:

  • Segundo alguns reformadores, apenas doutrinas que são explicitamente propostas na Bíblia são admissíveis — ou seja, o critério aqui é proposição explícita pela Bíblia (critério mais “estreito);
  • Segundo outros, se a Bíblia não condena ou contradiz determinada doutrina, e esta pode ser inferida como interpretação viável de um texto bíblico ou um conjunto de textos bíblicos, e foi assim interpretada por algum “Pai da Igreja”, ela é admissível — ou seja, o critério aqui é coerência com a Bíblia com respaldo da tradição (critério mais “amplo”).

Segundo os Reformadores Magisteriais, o batismo infantil, embora não proposto explicitamente pela Bíblia, não é proibido por ela, e encontra respaldo na Tradição, sendo, portanto, admissível. Neste caso, eles estão aceitando o critério mais “amplo” para o Sola Scriptura.

Segundo os Reformadores Radicais, porque a Bíblia não propõe explicitamente o batismo infantil, ele deve ser rejeitado (sendo, também, incompatível com a versão da justificação que eles defendiam). Neste caso, eles estão aceitando o critério mais “estreito” para o Sola Scriptura.

O fato de um grupo defender o critério mais “amplo” em um caso não parece ter sido empecilho para que defendesse o critério mais “estreito” em outro…

A coisa complicou e ficou realmente séria quando alguns grupos de Reformadores Radicais afirmaram não encontrar na Bíblia respaldo para a doutrina da Divindade de Cristo e da Trindade. . .

[Vide a excelente discussão dessa questão feita por Alistair E. McGrath, em Teologia Histórica: Uma Introdução à História do Pensamento Cristão (Editora Cultura Cristã, 2007), pp. 198-203; cp. pp. 52-59.]

4. A “Reforma Radical” e os Seus Grupos

Mas, isto posto, é forçoso reconhecer diferenças entre os diversos representantes da Reforma Radical. Pelo menos três grupos são identificados, que diferem bastante entre si, mas acabaram sendo reunidos para se contrapor ao grupo dos Reformadores Magisteriais:

  • Os Anabatistas, propriamente ditos (que apelavam mais para a autoridade da “Bíblia”, ou, mais precisamente, do Novo Testamento, entre eles);
  • Os Espiritualistas (que apelavam mais para a autoridade do “Espírito”);
  • Os Racionalistas (incluindo Socinianos e Valdenses, que apelavam mais para a autoridade da “Razão”).

São herdeiros do primeiro grupo os Irmãos Suíços, os Irmãos Tiroleses ou Bavários, os Irmãos Holandeses, os Menonitas, os Amish, os Quakers, todos na subcategoria Evangélica. Os grupos Revolucionários (Profetas de Zwickau, Huteritas, Münsteritas, etc.), também são considerados Anabatistas, porque buscam amparo para seu caráter revolucionário na Bíblia. Os Moderados incluem Andreas von Karlstadt e seus seguidores e os Irmãos Moravianos.

São representantes do segundo grupo, em suas várias subcategorias John Denck, Sebastian Franck, Caspar Schwenckfeld, Dirk Coornherts, Sebastião Castellio, etc. Há quem inclua Andreas von Karlstadt também aqui. É herdeira do segundo grupo a Igreja Schweckenfeld (com sede, hoje, na Pensilvânia, EUA).

São representantes do terceiro grupo, em suas várias subcategorias, Erasmo, Lefèvres, Michel Servetus, Fausto Sozzini, Lelio Sozzini, etc. e são herdeiros desse grupo os Valdenses, os Libertinos, os Nicodemitas, os Socinianos, as diversas Igrejas Unitárias (que não reconhecem a divindade de Cristo e a Triunidade de Deus) da Inglaterra e dos Estados Unidos, etc.

É inegável que há grande distância entre esses três grupos, que só parecem ser parte de uma mesma “tendência” em retrospectiva (visto que alguns desses grupos não reconhecem nem mesmo fazer parte da mesma família que outros).

Talvez a única característica realmente comum aos três grupos, sem maior contestação, seja sua resistência a um estabelecimento de vínculo entre a igreja e o estado — isto é, sua defesa de uma separação radical entre os dois. Eles não toleravam nenhuma intervenção do papa, nem do imperador, do rei, do príncipe, do parlamento, do conselho municipal, etc. em suas ideias e suas práticas, isto é, naquilo que consideravam os direitos dos súditos leais do “Rei dos Reis”. No entanto, houve situações em que os Anabatistas Huteritas e os Irmãos Moravianos aceitaram de bom-grado a proteção secular. Talvez se possa estabelecer uma distinção entre a aceitar a proteção do poder secular contra algum outro inimigo e admitir a interferência do poder secular em questões de governança interna da igreja. Também é preciso reconhecer que alguns anabatistas, como Thomas Münzer (parte do grupo “revolucionário”) queriam criar uma comunidade cristã aqui na terra em que igreja e estado eram basicamente a mesma coisa.

George Huntston Williams, conhecido historiador do movimento, foi quem sugeriu que esses três grupos fossem todos considerados parte da categoria “Reformas Radicais” (em vez de “A Ala Esquerda da Reforma”), com base na seguinte consideração. Embora os três grupos diferissem entre si sobre o que consideravam a “raiz” da fé e da ordem eclesiástica, bem como a fonte de autoridade divina (o Novo Testamento, ou o Espírito, ou a Razão), eles concordavam que essa fonte de autoridade liberava a igreja de acréscimos desnecessários, que a sufocavam, impostos pela tradição extra-radical posterior ao período apostólico.

De certo modo, os Reformadores Magisteriais, embora olhassem para o passado bíblico e dos Pais da Igreja, estavam preocupados com o presente, e, em função disso, estavam abertos a certos compromissos e acomodações. Os Reformadores Radicais, porém, queriam restaurar, no presente, a igreja do período apostólico, em sua forma mais pura e pristina (no enxergar de cada grupo). A territorialização da igreja, segundo ditames políticos, estava totalmente fora do admissível para todos eles.

Mas mesmo essa tentativa de impor certa ordem aos Reformadores Radicais por vezes falha.

[Vide George Huntston Williams, The Radical Reformation (The Westminster Press, 1962) e a obra por ele editada e introduzida Spiritual and Anabaptist Writers, vol. XXV da coleção Library of Christian Classics (The Westminster Press, 1957)].

5. Uma Nota Final

Tem havido um vivo debate, que ainda está em curso, se as Igrejas Batistas têm sua origem na tradição Anabatista das Reformas Radicais realizadas no Continente Europeu ou na resistência e dissidência radical à Reforma Magisterial realizada na Inglaterra — a Reforma Anglicana.

[Vide Malcom B. Yarnell, III, Editor, The Anabaptists and Contemporary Baptists: Restoring New Testament Christianity (Essays in Honor to Paige Patterson), B&H, Nashville, 2013]

Em São Paulo, 29 de Setembro de 2014; revisto em Salto, 4 de Maio de 2017.

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