Essencialização vs Adiaforização

“No essencial, unidade; no não-essencial, liberdade; em tudo, respeito [ou amor]”.

Existem algumas frases geniais que, exatamente por serem geniais, acabam sendo atribuídas a mais de um autor…

Uma delas é: “Desculpe-me ter-lhe escrito esta carta tão longa: é que não tive tempo para escrever uma mais curta”.

Outra: “O cúmulo da insanidade é continuar a fazer a mesma coisa de sempre e esperar que alguma vez o resultado venha a ser diferente”.

Ainda outra: “Nunca contei uma mentira, mas já inventei muitas verdades”.

A primeira é atribuída a Albert Einstein (mas também a várias outras pessoas). A segunda, a Mark Twain (mas também a outros). A terceira é atribuída a Voltaire (e a outros).

Um frase de que gosto muito — na verdade, ela está em forma de oração — é atribuída a Reinhold Niebuhr (mas também a outros): “Oh Deus, dá-me coragem para mudar o que pode ser mudado, resignação para aceitar o que não pode ser mudado, e sabedoria para distinguir um do outro”.

Outra frase que considero genial, em geral utilizada por igrejas e outras instituições que defendem determinados pontos de vista, doutrinas, ou ideologias: “No essencial, unidade; no não-essencial, liberdade; em tudo, respeito [ou amor]”.

As frases, em si, em especial as duas últimas, são geniais. Como a penúltima esclarece, tudo depende de conseguir classificar corretamente as coisas como passíveis de mudança ou impossíveis de mudar. No último caso, tudo depende de conseguir classificar corretamente o que é essencial e o que não é essencial (que é, portanto, “adiáforo”, ou seja, que tanto pode ser aceito como pode ser rejeitado sem alterar a essência da coisa)…

Um grande benefício do estudo da História da Igreja e principalmente da História da Doutrina (ou História do Pensamento Cristão) é que a gente descobre que, para alguns, tudo, mesmo a doutrina que aos demais parece patentemente não-essencial, é essencial, e que, para outros, tudo, mesmo a doutrina que para os demais parece patentemente essencial, é não-essencial (ou seja: nada é essencial).

Para horror dos fundamentalistas, a doutrina do nascimento virginal de Cristo é considerada por muitos teólogos protestantes importantes, como, por exemplo, Karl Barth, como não-essencial. Para os fundamentalistas, porém, ela é essencialíssima, tanto figura em primeiro lugar na lista dos Cinco Pontos considerados fundamentais por essa corrente teológica.

Na História da Igreja tivemos discussões intermináveis que resultaram em decisões conciliares acerca da divindade de Cristo e da Trindade. No entanto, há denominações inteiras de cristãos unitários que rejeitam a divindade de Cristo e, por conseguinte, a Triunidade de Deus.

A última frase citada diz que em tudo deve haver respeito [ou amor]… A História da Igreja mostra que, quando há discordâncias, e elas em geral são acerca de coisas que um grupo considera essencial e o outro não-essencial, o respeito [ou o amor] é a primeira vítima. Depois vem a outra vítima: aquele que perder a discussão… Quanta gente executada, na fogueira, na forca, no rio, por coisas que hoje parecem menores: batizam-se crianças ou não?

A Igreja Presbiteriana se dividiu em 1903, com a criação da Igreja Presbiteriana Independente, com muita dor e muito sofrimento, na época, para ambos os lados, a propósito de duas ou três questões que hoje parecem menores, a saber:

  1. Pastor pode ser também maçom?
  2. É chegada a hora de cortar os laços com as igrejas-mãe, americanas [havia duas]?
  3. A formação dos pastores deve ser feita dentro do Mackenzie ou em um Seminário próprio?

A terceira questão estava ligada à segunda, porque parte dos missionários americanos, envolvidos na administração do Mackenzie, queriam que a formação dos pastores fosse feita lá…

Hoje a questão da maçonaria tem importância mínima e há pouquíssimos pastores que são maçons. As missões americanas não têm mais vínculo com a Igreja Presbiteriana original. E, quanto a seminários, há vários — e há as Faculdades de Teologia, também, devidamente autorizadas e credenciadas pelo governo…

Ou seja, as questões que, em 1903, pareciam essenciais se desessencializaram (ou se adiaforizaram).

Quem estuda a História da Igreja e o seu pensamento fica, por vezes, com vontade de perguntar: Por que brigar, condenar, separar — só para, depois de algum tempo, voltar a unir, aceitar, dar as mãos?

É verdade que algumas separações têm vida longa… A separação entre a Igreja Ocidental (Católica e Romana) e a Igreja Oriental (Ortodoxa e Grega, Russa, etc.) já dura mil anos e a separação entre os Católicos e os Protestantes irá fazer quinhentos, dentro de três anos. . .

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