O Pietismo Alemão

Em sentido mais técnico e estreito do termo, o que se chama de Pietismo é um movimento religioso que teve lugar nos séculos 17-18, especialmente entre luteranos alemães, e que tomou corpo sob a liderança de Philipp Jakob Spener (1635-1705) e August Herrmann Francke (1663-1727).

Em sentido mais amplo, chamam-se de pietistas várias tendências religiosas que têm características afins às do Pietismo Luterano Alemão, como, por exemplo:

  • O Moravianismo (“Irmãos Cristãos”), identificado com a pessoa do Conde Nicolau Ludovico von Zinzendorf (1700-1760), com origem no Leste Europeu (sob influência direta do Pietismo Alemão), mas que se espalhou mundo afora, especialmente nos EUA;
  • O Metodismo, identificado com a pessoa de John Wesley (1703-1791), com origem na Inglaterra, no Século 18 (sob influência moraviana), mas que se espalhou para os EUA e para o mundo inteiro;
  • Os Despertamentos Transdenominacionais ocorridos nos EUA no Século 18 (e em séculos posteriores), identificados com várias lideranças, mas especialmente com Jonathan Edwards (1703-1758), embora tenham tido origem com Theodore J. Frelinghuysen (1691-1748), com orientação mais puritana do que pietista.
  • O Evangelicalismo atual.

De forma geral, quais são essas características do Pietismo?

Do ponto de vista negativo, o Pietismo achava que a Reforma Luterana iniciada no século anterior (Século 16), e havia sido uma reforma no plano das ideias, doutrinas, confissões (isto é, uma “Reforma da Cabeça”), com a fé sendo caracterizada como crença, como assentimento intelectual à doutrina. Essa reforma intelectualizada se tornou, no Século 17, uma Ortodoxia, isto é, uma obsessão com a formulação da “Doutrina Correta” (que incluía também elementos do culto e da liturgia, bem como da forma de organizar a igreja).

O ponto de vista positivo, o Pietismo buscou fazer uma “Reforma da Reforma”, que priorizasse a fé como relacionamento pessoal nosso com Deus, através de Cristo, e com o próximo, relacionamento esse que se materializasse numa vida transformada, focada na conviviabilidade piedosa, na comunhão, na oração, na leitura da Bíblia, na descoberta da vontade de Deus para cada um, no suporte e na sustentação da fé uns dos outros. Em outras palavras, o Pietismo buscou fazer uma “Reforma do Coração” que afetasse a vida do cristão em todos os seus aspectos.

Embora enfatizasse a vida cristã, o Pietismo, tinha divergências sobre como ver a relação do cristão com “o mundo”. Uma corrente defendia um afastamento e isolamento do mundo e um afastamento de suas práticas e de seus valores, assumindo uma postura moralista que postulava a rejeição de festas, de danças, da celebração alegre da vida. Outra corrente enfatizava a necessidade de envolvimento, a partir de uma perspectiva cristã, com questões educacionais e mesmo sociais. Sua ênfase era colocada na necessidade de transformar o mundo.

Em sentido mais genérico, portanto, pietista é a pessoa que dá mais ênfase à piedade pessoal do que ao cultivo de crenças, à comunhão entre os crentes, em especial em pequenos grupos, do que o pertencimento a uma igreja organizada, ao sacerdócio universal dos crentes do que à sujeição a um clero profissional.

De forma, agora, mais específica, quais as principais características do Pietismo, especialmente as derivadas do livro Pia Desideria (1675), de Philipp Jakob Spener, seu representante mais conhecido?

São elas:

  1. Ênfase na necessidade de conversão, de regeneração, de um segundo nascimento, que teria como base um arrependimento genuíno e, como resultado, uma transformação pessoal, uma vida diferente (santificação até o ponto de perfeição).
  2. Ênfase na necessidade de piedade pessoal como mecanismo de santificação, envolvendo oração, leitura constante da Bíblia, meditação, discussão, encorajamento mútuo (sem que fosse necessária uma “confissão” ou “teologia sistemática” abrangente que orientasse essa piedade).
  3. Reuniões regulares em pequenos grupos, chamados de ecclesiolae (microcomunidades eclesiais), vistos, esses grupos, não como uma divisão da igreja (ecclesia) em diversas “células”, mas entendidos como a própria manifestação autêntica da igreja de Cristo como ela teria existido na comunidade primitiva.
  4. As reuniões seriam conduzidas por leigos, visto que, como enfatizou a Reforma, todos os regenerados são sacerdotes (sacerdócio universal), tendo, portanto, conduzir a reunião, celebrar o culto (sempre com liturgia bastante simples), e ministrar a Ceia do Senhor, havendo certa desconfiança em relação à igreja organizada convencional, com seu formalismo, com sua liturgia complexa, com sua ligação com o estado, com sua aceitação do mundo como ele é.
  5. Havia uma esperança e expectativa da chegada iminente do milênio (precedido ou, preferencialmente, seguido da volta de Cristo) e o subsequente Juízo Final.
  6. Diante disso, havia basicamente duas correntes, uma que defendia o isolamento do mundo, a outra que defendia a necessidade de agir no mundo para transformar as suas instituições nas primícias da chegada iminente Reino de Deus.

[Eduardo Chaves, com base em material encontrado principalmente em Douglas H. Shantz, An Introduction to German Pietism: Protestant Renewal at the Dawn of Modern Europe (The John Hopkins University Press, Baltimore, 2013) e em artigos sobre Pietismo em várias enciclopédias online]

Em São Paulo, 26 de Novembro de 2014.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s