Evangelismo, Evangelicalismo, Evangelicismo. . .

1. Introdução

Os três termos do título têm a mesma raiz: o termo euangélion (εὐαγγέλιον), em Grego, que normalmente se traduz por boas novas, boas notícias, ou simplesmente evangelho.

No Novo Testamento o termo euangélion é usado para descrever a mensagem da redenção em Cristo. Essa seria a essência do evangelho cristão. O site “Bible Hub” dá a referência para as 41 ocorrências do termo no Novo Testamento (http://biblehub.com/greek/euangelion_2098.htm). Na maioria dos casos o termo é traduzido como evangelho na Bíblia em Português. Às vezes o termo “evangelho” vem complementado por “do Reino”, “de Deus”, “de Cristo”, “da Graça”, etc.

Evangelismo é um termo antigo e consagrado para descrever o processo de proclamação da mensagem do evangelho para aqueles que ainda não a conhecem ou, conhecendo-a, por alguma razão não a aceitam (ainda?).

O termo Evangélico começou a ser usado a partir da Reforma do século 16 para descrever as igrejas e denominações protestantes. Principalmente os luteranos gostam de denominar suas igrejas ou denominações de “Igreja Evangélica”. As duas principais denominações luteranas no Brasil se chamam “Igreja Evangélica de Confissão Luterana” (criada por imigrantes alemães) e “Igreja Evangélica Luterana” (criada por missionários americanos).

Enquanto ocorria, no século 17, o movimento pietista na Europa (que lá teve inspiração principalmente luterana), nos Estados Unidos houve, nos séculos 18 e 19, uma série de avivamentos espirituais de caráter transdenominacional (ou, pelo menos, interdenominacionais ou mesmo multidenominacionais), chamados de “Great Awakenings” (Grandes Despertamentos). As pessoas que eram atraídas por esses movimentos começaram a se denominar, em Inglês, de “evangelicals” — donde acabou por surgir o termo “Evangelicalism” para designar o movimento avivamentista.

No século 20, com o desprestígio do Fundamentalismo nos Estados Unidos, que ocorreu a partir de 1925, muitos pastores e teólogos americanos, que tinham simpatia pelo Fundamentalismo, enquanto sistema doutrinário, mas não endossavam a atitude beligerante e separatista dos fundamentalistas mais radicais, ou que simplesmente eram conservadores moderados, que não queriam ser considerados fundamentalistas, vieram a recorrer aos termos “evangelicals” ou “neo-evangelicals”, em especial após a criação, em 1940, da “National Association of Evangelicals”, para fazer face ao “Federal Council of Churches”, de tendência liberal, e ao “American Council of Christian Churches”, de tendência admitidamente fundamentalista. A partir daí o uso dos termos “evangelicals” e “Evangelicalism” se tornou corrente para designar cristãos protestantes que pretendiam ser uma espécie de “via média” entre o Fundamentalismo e o Liberalismo — embora, do ponto de vista doutrinário, estivessem, inicialmente, bem mais perto do primeiro desses dois movimentos.

Em Português enfrentamos um problema com a tradução. Traduzir “evangelical” (nesse último sentido) por “evangélico” levava a mal-entendidos por causa da ambiguidade do termo. Por isso começou a se usar os canhestros termos “evangelical” (oxítono), e, inevitavelmente, “Evangelicalismo”, para designar o movimento. Eu, pessoalmente, prefiro as traduções “evangelicista” e “Evangelicismo” por me soarem menos mal do que os inusitados “evangelical” e “Evangelicalismo”.

Assim, vou considerar o Evangelicismo como sendo um grupo razoavelmente diverso de tendências no Protestantismo do século 20 e contemporâneo, que se afirmou como tal primeiro nos Estados Unidos, mas, depois, se esparramou pelo mundo inteiro, que se situa entre o Fundamentalismo e o Liberalismo em seus pontos de vista (isto é, nas doutrinas que aceita e defende). Sobre isso, vide o Capítulo 2.

2. As Principais Tendências Evangelicistas

As tendências evangelicistas podem ser divididas em três grandes grupos:

Na extrema direita da via média, há o grupo que, doutrinariamente, é basicamente fundamentalista, embora rejeite o caráter beligerante e separatista do Fundamentalismo histórico, e que remonta, em muitos aspectos à Reforma, à Ortodoxia Protestante e à chamada Teologia de Princeton;

No centro da via média, há o grupo que tenta se manter fiel aos principais princípios da Reforma Protestante, especialmente na tradição calvinista (mediada, nos Estados Unidos, pelo Puritanismo e também pela Teologia de Princeton), mas preservando uma certa flexibilidade na sua interpretação — flexibilidade essa que o diferencia dos Fundamentalistas.

[A diferença entre essas duas primeiras tendências é, por vezes, demasiado sutil, havendo quem as agrupe numa só.]

Na extrema esquerda da via média, há o grupo que, enxergando suas raízes no Pietismo europeu, nos Grandes Despertamentos americanos, no Metodismo e, mais recentemente, no Pentecostalismo, acabou por adotar, no que diz respeito à sua interpretação da doutrina, uma postura mais progressista, mais próxima do Liberalismo — embora esteja longe de cerrar fileiras com os liberais.

A. Crenças Comuns às Várias Tendências

Segundo Roger E. Olson, em seu livro The Westminster Handbook in Evangelical Theology (Westminster John Knox Press, Louisville, KY, 2004), todos os evangelicistas, não importa a sua tendência, aceitam e defendem as seguintes doutrinas tradicionais do Cristianismo (embora lhes deem interpretações diferenciadas, dependendo da tendência):

  • A autoridade da Bíblia como norma suprema de fé e prática;
  • Existência de um Deus sobrenatural que intervém na realidade natural;
  • A natureza “caída” e pecaminosa do ser humano;
  • A divindade de Jesus Cristo e a natureza redentora e salvífica de sua obra, em especial, de seu sofrimento, sua morte e sua ressurreição;
  • A necessidade de arrependimento e fé (conversão, novo nascimento) para a salvação;
  • A importância de uma vida piedosa de discipulado, com oração e leitura da Bíblia, comunhão com outros crentes;
  • A urgência do evangelismo e da obra social da Igreja;
  • O retorno de Jesus Cristo e o juízo final.

Segundo Olson, “muitos evangélicos acreditam em mais do que isso; nenhum afirma menos ou nega a verdade dessas doutrinas” (pp. 6-7).

Um exemplo. Todos aceitam a autoridade da Bíblia como norma suprema de fé e prática. Mas os fundamentalistas aceitam a autoridade da Bíblia também em questões que nada têm que ver com fé e prática, como, por exemplo, questões históricas, geográficas, científicas ou mesmo do senso comum. Além disso, os fundamentalistas defendem a tese de que a Bíblia foi verbalmente inspirada por Deus (inspirada até mesmo no tocante às palavras usadas) e é totalmente sem erro, até mesmo em questões que não envolvem fé e prática.

Outro exemplo. Todos aceitam a existência de um Deus sobrenatural que intervém na realidade natural. Os mais fundamentalistas acreditam que essas intervenções divinas são de caráter necessariamente miraculoso, enquanto os mais progressistas acreditam que Deus intervenha basicamente através das leis naturais que ele criou.

Note-se que, na formulação das doutrinas comuns, não se faz referência ao impacto da queda na natureza humana: se ela corrompeu totalmente a natureza humana ou se ainda resta, no ser humano, um vestígio de liberdade e iniciativa mediante as quais ele pode aceitar ou rejeitar a obra redentora de Jesus Cristo. Não se esclarece, portanto, se a fé é totalmente dom gracioso de Deus ou se ela envolve alguma cooperação (sinergismo) do ser humano.

Também não se esclarece se o retorno de Jesus será antes ou depois do milênio, nem se haverá tribulações, etc. Nem se, depois do julgamento final, qual será o destino dos que rejeitaram a Jesus Cristo (ou não eleitos): se, por exemplo, eles serão extintos ou se padecerão no inferno penas eternas…

E assim vai.

B. As Duas Tendências Mais Próximas do Calvinismo

Não resta dúvida de que a primeira e a segunda tendências, como já assinalado atrás, são herdeiras da tradição calvinista — que passa pelos Puritanos, pela Ortodoxia Protestante (Reformada), pela Teologia de Princeton, e, em última instância, pelo Fundamentalismo americano (interdenominacional mas predominante na Igreja Presbiteriana e na Igreja Batista) do final do século 19 e início do século 20. Aqui se localiza o pessoal que, dentro da Igreja Presbiteriana americana, ficou, nos diversos cismas, do lado do Old Side e da Old School.

O que separa a primeira da segunda tendência é a proximidade ou relativa simpatia com os Fundamentalistas.

A primeira dessas duas tendências é basicamente um Fundamentalismus Redivivus, calcado nos Cinco Pontos (TULIP), mas sem a agressividade beligerante, o sectarismo, a disposição para separar do restante da igreja que era por eles considerada apóstata. Esse grupo é anti-ecumênico (mesmo dentro do Protestantismo) e não coloca ênfase no papel social da igreja. Muitos deles são premilenialistas, consideram as profecias dos últimos tempos extremamente importantes, esperam o arrebatamento para qualquer minuto, e vivem num clima de “batalha espiritual” em preparação para o final dos tempos. É desnecessário frisar que são ferrenhos defensores da ideia da inspiração plenária e da inerrância e infalibilidade da Bíblia.

A segunda dessas duas tendências, embora também de orientação calvinista, não dá tanta importância aos Cinco Pontos (TULIP), não endossa a ideia princetoniana da inspiração plenária e da consequente inerrância da Bíblia — embora a aceite como autoridade suprema como norma de fé e prática. Admite, portanto, que a Bíblia possa conter erros de fato, em questões históricas, geográficas e científicas — sem que esse fato prejudique sua autoridade como padrão de fé e prática. Aceita, também, a possibilidade de que o mundo tenha passado por um processo de evolução, não interpreta os relatos da criação literalmente, deixa aberta a possibilidade de que os “dias da criação” sejam interpretados como períodos de milhares ou mesmo milhões de anos, etc. Em geral, não são dispensacionalistas e em geral são amilenialistas.

C. A Tendência Pietista / Avivamentista Mais Próxima do Arminianismo

A terceira tendência têm uma herança que reporta ao Pietismo Luterano, ao Wesleyanismo, aos Grandes Despertamentos, ao Movimento Holiness, ao Pentecostalismo. A teologia desse grupo deve bem mais ao pensamento de Jacó Armínio, Felipe Jacó Spener, Augusto Hermann Francke, Conde de Zinzendorf, João Wesley, Jonathan Edwards, George Whitefield e Charles Finney do que ao pensamento de João Calvino, Francisco Turretino, Carlos Hodge, Alexandre Hodge, Benjamin Warfield.

Aqui se localiza o pessoal que, dentro da Igreja Presbiteriana americana, ficou, nos diversos cismas, do lado do New Side e da New School e que veio a ter alguma simpatia pela teologia liberal, com sua ênfase na experiência e na conduta.

D. Tensões

O Protestantismo americano está meio cansado de lutas doutrinárias. A controvérsia Fundamentalista-Modernista o deixou de ressaca. Mas isso não quer dizer que não haja tensão entre as tendências calvinistas (as duas primeiras tendências), de um lado, e as tendências mais pietistas e avivadas de inspiração arminiana.

Roger E. Olson, no livro mencionada, sugere que esses dois grupos ainda não racharam de vez apenas por causa da “cola carismática de Billy Graham” que os mantém razoavelmente unidos. Quando ele morrer, provavelmente não haverá nada que consiga manter unidos esses dois grupos.

E, daí, uma nova controvérsia, no estilo da antiga, pode surgir…

3. Bibliografia Básica

David W. Bebbington, The Dominance of Evangelicalism: The Age of Spurgeon and Moody (InterVarsity Press, Downers Grove, IL, 2005) – Vol III da série A History of Evangelicalism: People, Movements and Ideas in the English Speaking World, editada por Mark A. Noll

Gary Dorrien, The Remaking of Evangelical Theology (Westminster John Knox Press, Louisville, KY, 1998)

Christianity Today Essentials, The Rise of the Evangelicals: The Birth of a Movement that Changed America (Christianity Today, Carol Stream, IL, 2012)

George M. Marsden, Understanding Fundamentalism and Evangelicalism (William B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids, MI, 1991)

George M. Marsden, Reforming Fundamentalism: Fuller Seminary and the New Evangelicalism (William B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids, MI, 1987)

Mark A. Noll, The Rise of Evangelicalism: The Age of Edwards, Whitefield and the Wesleys (InterVarsity Press, Downers Grove, IL, 2003) – Vol I da série A History of Evangelicalism: People, Movements and Ideas in the English Speaking World, editada por Mark A. Noll

Roger E. Olson, How to Be Evangelical Without Being Conservative (Zondervan Publishing, Grand Rapids, MI, 2009)

Roger E. Olson, em seu livro The Westminster Handbook in Evangelical Theology (Westminster John Knox Press, Louisville, KY, 2004)

Roger E. Olson, Kevin Bauder, R. Albert Mohler Jr. & John G. Stackhouse Jr., Four Views on the Spectrum of Evangelicalism (Zondervan Publishing, Grand Rapids, MI, 2009)

Brian Stanley, The Global DIffusion of Evangelicalism: The Age of Graham and Stott (InterVarsity Press, Downers Grove, IL, 2013) – Vol V da série A History of Evangelicalism: People, Movements and Ideas in the English Speaking World, editada por Mark A. Noll

Geoff Treloar, The Disruption of Evangelicalism: The Age of Mott, Machen and McPherson (InterVarsity Press, Downers Grove, IL, 2015 ou 2016) – Vol IV da série A History of Evangelicalism: People, Movements and Ideas in the English Speaking World, editada por Mark A. Noll [ainda no prelo — deveria ter sido publicado em 2009-2010]

John R. Wolffe, The Expansion of Evangelicalism: The Age of More, Wilberforce, Chalmers and Finney (InterVarsity Press, Downers Grove, IL, 2007) – Vol II da série A History of Evangelicalism: People, Movements and Ideas in the English Speaking World, editada por Mark A. Noll

Em São Paulo, 29 de Julho de 2015

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