Billy Graham e o Movimento Evangelístico Internacional

Entre as importantes realizações de Billy Graham está (além de suas conhecidas Cruzadas Evangelísticas) “o alvorecer de uma nova era missionária” (expressão retirada da primeira frase do Pacto de Lausanne – ver adiante) e o que me parece ser a definitiva internacionalização e interdenominacionalização do movimento evangelístico cristão na segunda metade do século 20 – fato esses que deram uma aura de unidade global ao Movimento Neo-Evangélico criado e “energizado” (por ele e outras figuras importantes, como Harold Ockenga e Carl F. H. Henry) a partir de meados dos anos 40. O ministério de Graham compreende os 60 anos de 1945 a 2005 (embora ele esteja ainda vivo, devendo completar 97 anos de idade em 7 de novembro deste ano de 2015, quando ela completa dez anos de aposentadoria).

(Falo em Movimento Neo-Evangélico, quando outros chamam esse movimento, mesmo em Português, simplesmente de “Evangelical” ou simplesmente de “Evangelicalismo”, porque a ação de Graham et alii retoma e relança o Movimento Evangélico / Evangelístico original, surgido nos séculos 18 e 19, que envolveu o Pietismo no Continente Europeu, a revolução metodista na Inglaterra e nos Estados Unidos, os diversos Despertamentos e Avivamentos interdenominacionais que tiveram lugar nos Estados Unidos nesses dois séculos (The Great Awakening, The Second Awakening, The Third Awakening), o surgimento do movimento Pentecostal, já no início do século 20 (mas preparado pelos desenvolvimentos anteriores), etc.. Essa rica herança – que envolveu criação do movimento missionário internacional do século 19 – faz com que alguns autores chamem o movimento Neo-Evangélico, em especial depois de sua preocupação com a internacionalização e interdenominacionalização (ou “ecumenização”) da causa evangelística, de The Fourth Awakening).

Depois do Congresso Internacional de Edinburgo, em 1910, que não foi global, porque dele participou apenas parte do “Norte” (a Europa e os Estados Unidos), nem ecumênico, porque dele não participaram cristãos católicos e ortodoxos, houve um hiato de mais de 50 anos em que pouca coisa aconteceu na área do fortalecimento do movimento evangelístico no plano verdadeiramente internacional e interdenominacional (ou ecumênico). As missões evangelísticas do século 19 foram estrangeiras mas não necessariamente internacionais, muito menos interdenominacionais (ou ecumênicas), cada denominação se incumbindo de desenvolver a sua e às vezes se concentrando num segmento específico do globo: a América Latina, a África, a Ásia. O Protestantismo brasileiro, embora, em alguns casos, como o luterano, se deva à imigração, é predominantemente um Protestantismo de Missões que aqui criou raízes especialmente no século 19.

Foi Billy Graham quem concebeu, convocou, organizou, financiou e abriu, como seu Chairman Honorário, o Congresso Mundial de Evangelismo de Berlin, em 1966, cinquenta e seis anos depois do Congresso de Edinburgo. Carl F. H. Henry, parceiro de Billy Graham, e que havia sido colocado por ele como editor da revista Christianity Today, da qual Billy Graham também foi um dos fundadores (e que existe até hoje), foi o Chairman (Secretário Executivo) do Congresso de Berlin.

Também foi Billy Graham quem concebeu, convocou, organizou, financiou e abriu, igualmente como seu Chairman Honorário, o mais famoso desses congressos, o Congresso Internacional para a Evangelização Mundial, realizado em Lausanne, Suíça, em Julho de 1974.

Para esse congresso Billy Graham sabiamente escolheu um bispo anglicano radicado na Austrália, A. J. “Jack” Dain, um competente e diplomático “organization man”, com excelente trânsito nos bastidores e meandros do complicado movimento Neo-Evangélico, como Chairman (Secretário Executivo) do Comitê Planejador e Organizador do congresso, e o famoso teólogo inglês, John Stott, para servir como redator do documento final do congresso, o chamado “Lausanne Covenant” (Pacto de Lausanne) – também uma sábia decisão. Chamo de sábias essas decisões porque os ingleses, como um grupo nacional, estavam extremamente reticentes em relação ao congresso – em parte por preconceitos contra Graham, em parte porque a iniciativa de Graham significava que os Estados Unidos estavam definitivamente removendo mais uma área da esfera de influência inglesa, depois de terem assumido a liderança industrial, econômica, política e militar.

Foi ainda criado um Comitê de Continuação para, posteriormente ao congresso, dar implementação e continuidade às suas decisões. Esse comitê existe até hoje (tendo retirado a referência a “continuação” do nome) e foi responsável pela organização, sob a “marca” Lausanne, de dois outros congressos internacionais, o de Manila, nas Filipinas, em 1989, quinze anos depois do primeiro, e o de Cidade do Cabo, na África do Sul, em 1910, 21 anos depois do segundo. O envolvimento de Billy Graham no segundo e no terceiro congressos foi bem menor – em parte por causa da idade. Seu filho, Franklin Graham, nem de longe tão carismático, diplomático e eficiente quanto o pai, participou do Congresso de Cidade do Cabo.

A razão para Billy Graham pessoalmente se envolver na organização e na viabilização do  financiamento dos eventos internacionais e transdenominacionais de Berlin e Lausanne (neste caso, o primeiro) está no fato que ele achava que as igrejas organizadas, depois do século 19 em que elas verdadeiramente se voltaram para o trabalho evangelístico de conquistar para o Cristianismo os povos não-cristãos da América Latina [aqui, cristãos católicos em grande parte nominais apenas], da África e da Ásia, haviam se tornado muito “ensimesmadas”, voltadas para si mesmas, preocupadas exageradamente com seus próprios problemas. Eis o que diz o Pacto de Lausanne, em seu item 6: “Precisamos deixar os nossos guetos eclesiásticos e penetrar na sociedade não-cristã”. Eis algumas das questões que caracterizavam a preocupação com “os  nossos guetos eclesiásticos”:

  • Questões doutrinárias, tentativas de redefinir o objeto da fé para não serem engolidas pelo mundo cético e secularizado, certamente desencantado com a religião organizada, que irrompeu na Europa e nos Estados Unidos (mais na Europa do que nos Estados Unidos) no século 20;
  • Questões de unidade interna, decorrente de conflitos, em parte teológicos, e parte políticos (política interna à denominação e externa a ela), e em parte culturais, entre suas facções conservadoras (não raro fundamentalistas), modernistas (liberais e, cada vez mais, “pós-modernas”) e, no meio, moderadas;
  • Questões, ao mesmo tempo internas e externas, sobre como lidar com grupos reivindicatórios que se consideravam discriminados dentro das diferentes denominações, como, por exemplo, as minorias raciais e étnicas (racismo), as mulheres (feminismo), os homossexuais e outras minorias em termos de orientação sexual (sexismo), os defensores de uma ação social mais agressiva da igreja no combate à miséria e à pobreza (classismo), os proponentes de um envolvimento mais agressivo da igreja na luta contra a opressão institucionalizada dos povos, como nos regimes colonialistas (imperialismo) (o, em que essa opressão era acompanhada de racismo (como na África do Sul) e ditaduras militares (como em boa parte da América Latina e da África), e nos regimes totalitários comunistas (oficialmente ateus), etc.;
  • Questões de aproximação externa com outras denominações e igrejas cristãs, com vistas à cooperação interdenominacional e, quem sabe, eventual construção de um verdadeiro movimento ecumênico que levasse a uma oportuna unificação do Cristianismo.

Enquanto tudo isso acontecia, e as igrejas continuavam, por assim dizer e em grande parte, a olhar para os próprios umbigos, a questão da evangelização dos povos (ainda) não cristãos (fora da Europa e dos Estados Unidos) não recebia a devida atenção, no entender de Billy Graham. . . Por maior sucesso que tivessem suas Cruzadas Evangelísticas Internacionais (e elas tiveram muito sucesso), o Cristianismo não podia depender apenas delas para parar de perder terreno para o secularismo e outras ideologias a-cristãs ou mesmo anti-cristãs (e anti-religiosas, como era o caso do Comunismo), e avançar no cumprimento da Grande Comissão (“Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura”).

A ação de Billy Graham na internacionalização e interdenominacionalização do movimento de evangelização mundial, e através da ação de suas Cruzadas, que começaram nos Estados Unidos mas, gradualmente, se voltaram mais e mais para outros países, inclusive do Terceiro Mundo (tendo ele  estado diversas vezes no Brasil, por exemplo), é, em grande parte, responsável pela chamada “mudança de eixo” do Cristianismo na segunda metade do século 20, que começou a crescer em taxas fantásticas no Terceiro Mundo (o “Sul”, ou o “Mundo da Maioria”, como preferem alguns), do que no Primeiro Mundo (Europa e Estados Unidos, principalmente), em que, em especial no caso Europeu, taxas declinantes de crescimento apontam para uma possível taxa negativa futuramente.

Por fim, é importante ressaltar que Billy Graham, ao convidar participantes latino-americanos (bem como africanos e asiáticos) para o Congresso de Lausanne, acabou por criar um problema, certamente não antecipado e muito menos desejado por ele: a criação, dentro do movimento Neo-Evangélico, de uma ala “esquerdista”, por assim dizer. Três representantes latinoamericanos, por sinal todos os três batistas, de certo modo roubaram um pouco a cena, em Lausanne: René Padilla, equatoriano, Samuel Escobar, peruano, e Orlando Costas portoriquenho. Estes três (dos quais apenas Orlando Costas é falecido, tendo morrido em 1987, aos 45 anos) criaram furor no congresso propondo e defendendo uma Teologia da Missão Integral, que defendia que a missão (integral) da igreja também deveria envolver:

  • sem prejuízo do aspecto importante e quiçá prioritário da conquista do mundo para o Cristianismo e da salvação da alma das pessoas, que irá beneficiar não só as pessoas, individualmente, “no celeste porvir”, mas também o mundo, nesta “dispensação” (a evangelização, propriamente dita);
  • o combate à miséria e à pobreza, à doença e à fragilização da vida, ao crime e à violência, bem como a promoção da educação (aquilo que, apesar de soar mal, pode ser chamado de combate à ignorância e à superstição), não só através do assistencialismo, mas, sim, e principalmente, pela busca de mudanças nas estruturas sociais que perpetuam essas condições (a chamada ação social);
  • a luta contra a opressão (a chamada libertação dos oprimidos), estejam os oprimidos debaixo de estruturas de poder colonialistas, imperialistas, racistas, totalitárias e ditatoriais, ou mesmo debaixo de estruturas de preconceito em sociedades democráticas;
  • o apoio aos aflitos, qualquer que seja a fonte de sua aflição (o chamado cuidado pastoral);
  • a gradual transferência de controle do trabalho missionário no Terceiro Mundo para as igrejas locais.

Embora em nenhum momento, durante o Congresso de Lausanne, Billy Graham e sua organização tenham manifestado oposição a essas ênfases oriundas dos pronunciamentos dos latinoamericanos, tendo elas sido incluídas até mesmo no Pacto de Lausanne, transcrito a seguir, embora de forma não tão “acachapante” (a redação diplomática de Stott tendo amenizado bastante o seu caráter confrontacional”), Billy Graham ficou preocupado, depois do Congresso, que esses componentes não-evangelísticos da chamada Missão Total pudessem, com o tempo, eclipsar o que para ele era a ênfase primária e essencial na evangelização. Por isso, ele gradualmente se afastou, sem denúncias ou rompimentos formais, de um envolvimento maior com o Comitê de Lausanne.

É isso. A seguir, o Pacto de Lausanne, com alguns realces meus (sublinhados) para os pontos mais relevantes ao que foi discutido aqui.

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Pacto de Lausanne

INTRODUÇÃO

Nós, membros da Igreja de Jesus Cristo, procedentes de mais de 150 nações, participantes do Congresso Internacional de Evangelização Mundial, em Lausanne, louvamos a Deus por sua grande salvação, e regozijamo-nos com a comunhão que, por graça dele mesmo, podemos ter com ele e uns com os outros. Estamos profundamente tocados pelo que Deus vem fazendo em nossos dias, movidos ao arrependimento por nossos fracassos e desafiados pela tarefa inacabada da evangelização. Acreditamos que o evangelho são as boas novas de Deus para todo o mundo, e por sua graça, decidimo-nos a obedecer ao mandamento de Cristo de proclamá-lo a toda a humanidade e fazer discípulos de todas as nações. Desejamos, portanto, reafirmar a nossa fé e a nossa resolução, e tornar público o nosso pacto.

  1. O Propósito de Deus

Afirmamos a nossa crença no único Deus eterno, Criador e Senhor do Mundo, Pai, Filho e Espírito Santo, que governa todas as coisas segundo o propósito da sua vontade. Ele tem chamado do mundo um povo para si, enviando-o novamente ao mundo como seus servos e testemunhas, para estender o seu reino, edificar o corpo de Cristo, e também para a glória do seu nome. Confessamos, envergonhados, que muitas vezes negamos o nosso chamado e falhamos em nossa missão, em razão de nos termos conformado ao mundo ou nos termos isolado demasiadamente. Contudo, regozijamo-nos com o fato de que, mesmo transportado em vasos de barro, o evangelho continua sendo um tesouro precioso. À tarefa de tornar esse tesouro conhecido, no poder do Espírito Santo, desejamos dedicar-nos novamente.

  1. A Autoridade e o Poder da Bíblia

Afirmamos a inspiração divina, a veracidade e autoridade das Escrituras tanto do Velho como do Novo Testamento, em sua totalidade, como única Palavra de Deus escrita, sem erro em tudo o que ela afirma, e a única regra infalível de fé e prática. Também afirmamos o poder da Palavra de Deus para cumprir o seu propósito de salvação. A mensagem da Bíblia destina-se a toda a humanidade, pois a revelação de Deus em Cristo e na Escritura é imutável. Através dela o Espírito Santo fala ainda hoje. Ele ilumina as mentes do povo de Deus em toda cultura, de modo a perceberem a sua verdade, de maneira sempre nova, com os próprios olhos, e assim revela a toda a igreja uma porção cada vez maior da multiforme sabedoria de Deus.

  1. A Unicidade e a Universalidade de Cristo

Afirmamos que há um só Salvador e um só evangelho, embora exista uma ampla variedade de maneiras de se realizar a obra de evangelização. Reconhecemos que todos os homens têm algum conhecimento de Deus através da revelação geral de Deus na natureza. Mas negamos que tal conhecimento possa salvar, pois os homens, por sua injustiça, suprimem a verdade. Também rejeitamos, como depreciativo de Cristo e do evangelho, todo e qualquer tipo de sincretismo ou de diálogo cujo pressuposto seja o de que Cristo fala igualmente através de todas as religiões e ideologias. Jesus Cristo, sendo ele próprio o único Deus-homem, que se ofereceu a si mesmo como único resgate pelos pecadores, é o único mediador entre Deus e os homens. Não existe nenhum outro nome pelo qual importa que sejamos salvos. Todos os homens estão perecendo por causa do pecado, mas Deus ama todos os homens, desejando que nenhum pereça, mas que todos se arrependam. Entretanto, os que rejeitam Cristo repudiam o gozo da salvação e condenam-se à separação eterna de Deus. Proclamar Jesus como “o Salvador do mundo” não é afirmar que todos os homens, automaticamente, ou ao final de tudo, serão salvos; e muito menos que todas as religiões ofereçam salvação em Cristo. Trata-se antes de proclamar o amor de Deus por um mundo de pecadores e convidar todos os homens a se entregarem a ele como Salvador e Senhor no sincero compromisso pessoal de arrependimento e fé. Jesus Cristo foi exaltado sobre todo e qualquer nome. Anelamos pelo dia em que todo joelho se dobrará diante dele e toda língua o confessará como Senhor.

  1. A Natureza da Evangelização

Evangelizar é difundir as boas novas de que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou segundo as Escrituras, e de que, como Senhor e Rei, ele agora oferece o perdão dos pecados e o dom libertador do Espírito a todos os que se arrependem e crêem. A nossa presença cristã no mundo é indispensável à evangelização, e o mesmo se dá com aquele tipo de diálogo cujo propósito é ouvir com sensibilidade, a fim de compreender. Mas a evangelização propriamente dita é a proclamação do Cristo bíblico e histórico como Salvador e Senhor, com o intuito de persuadir as pessoas a vir a ele pessoalmente e, assim, se reconciliarem com Deus. Ao fazermos o convite do evangelho, não temos o direito de esconder o custo do discipulado. Jesus ainda convida todos os que queiram segui-lo e negarem-se a si mesmos, tomarem a cruz e identificarem-se com a sua nova comunidade. Os resultados da evangelização incluem a obediência a Cristo, o ingresso em sua igreja e um serviço responsável no mundo.

  1. A Responsabilidade Social Cristã

Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela conciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada. Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de termos algumas vezes considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão. Pois ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e do homem, de nosso amor por nosso próximo e de nossa obediência a Jesus Cristo. A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando as pessoas recebem Cristo, nascem de novo em seu reino e devem procurar não só evidenciar mas também divulgar a retidão do reino em meio a um mundo injusto. A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta.

  1. A Igreja e a Evangelização

Afirmamos que Cristo envia o seu povo redimido ao mundo assim como o Pai o enviou, e que isso requer uma penetração de igual modo profunda e sacrificial. Precisamos deixar os nossos guetos eclesiásticos e penetrar na sociedade não-cristã. Na missão de serviço sacrificial da igreja a evangelização é primordial. A evangelização mundial requer que a igreja inteira leve o evangelho integral ao mundo todo. A igreja ocupa o ponto central do propósito divino para com o mundo, e é o agente que ele promoveu para difundir o evangelho. Mas uma igreja que pregue a Cruz deve, ela própria, ser marcada pela Cruz. Ela torna-se uma pedra de tropeço para a evangelização quando trai o evangelho ou quando lhe falta uma fé viva em Deus, um amor genuíno pelas pessoas, ou uma honestidade escrupulosa em todas as coisas, inclusive em promoção e finanças. A igreja é antes a comunidade do povo de Deus do que uma instituição, e não pode ser identificada com qualquer cultura em particular, nem com qualquer sistema social ou político, nem com ideologias humanas.

  1. Cooperação na Evangelização

Afirmamos que é propósito de Deus haver na igreja uma unidade visível de pensamento quanto à verdade. A evangelização também nos convoca à unidade, porque o ser um só corpo reforça o nosso testemunho, assim como a nossa desunião enfraquece o nosso evangelho de reconciliação. Reconhecemos, entretanto, que a unidade organizacional pode tomar muitas formas e não ativa necessariamente a evangelização. Contudo, nós, que partilhamos a mesma fé bíblica, devemos estar intimamente unidos na comunhão uns com os outros, nas obras e no testemunho. Confessamos que o nosso testemunho, algumas vezes, tem sido manchado por pecaminoso individualismo e desnecessária duplicação de esforço. Empenhamo-nos por encontrar uma unidade mais profunda na verdade, na adoração, na santidade e na missão. Instamos para que se apresse o desenvolvimento de uma cooperação regional e funcional para maior amplitude da missão da igreja, para o planejamento estratégico, para o encorajamento mútuo, e para o compartilhamento de recursos e de experiências.

  1. Esforço Conjugado de Igrejas na Evangelização

Regozijamo-nos com o alvorecer de uma nova era missionária. O papel dominante das missões ocidentais está desaparecendo rapidamente. Deus está levantando das igrejas mais jovens um grande e novo recurso para a evangelização mundial, demonstrando assim que a responsabilidade de evangelizar pertence a todo o corpo de Cristo. Todas as igrejas, portando, devem perguntar a Deus, e a si próprias, o que deveriam estar fazendo tanto para alcançar suas próprias áreas como para enviar missionários a outras partes do mundo. Deve ser permanente o processo de reavaliação da nossa responsabilidade e atuação missionária. Assim, haverá um crescente esforço conjugado pelas igrejas, o que revelará com maior clareza o caráter universal da igreja de Cristo. Também agradecemos a Deus pela existência de instituições que laboram na tradução da Bíblia, na educação teológica, no uso dos meios de comunicação de massa, na literatura cristã, na evangelização, em missões, no avivamento de igrejas e em outros campos especializados. Elas também devem empenhar-se em constante auto-exame que as levem a uma avaliação correta de sua efetividade como parte da missão da igreja.

  1. Urgência da Tarefa Evangelística

Mais de dois bilhões e setecentos milhões de pessoas, ou seja, mais de dois terços da humanidade, ainda estão por serem evangelizadas. Causa-nos vergonha ver tanta gente esquecida; continua sendo uma reprimenda para nós e para toda a igreja. Existe agora, entretanto, em muitas partes do mundo, uma receptividade sem precedentes ao Senhor Jesus Cristo. Estamos convencidos de que esta é a ocasião para que as igrejas e as instituições para-eclesiásticas orem com seriedade pela salvação dos não-alcançados e se lancem em novos esforços para realizarem a evangelização mundial. A redução de missionários estrangeiros e de dinheiro num país evangelizado algumas vezes talvez seja necessária para facilitar o crescimento da igreja nacional em autonomia, e para liberar recursos para áreas ainda não evangelizadas. Deve haver um fluxo cada vez mais livre de missionários entre os seis continentes num espírito de abnegação e prontidão em servir. O alvo deve ser o de conseguir por todos os meios possíveis e no menor espaço de tempo, que toda pessoa tenha a oportunidade de ouvir, de compreender e de receber as boas novas. Não podemos esperar atingir esse alvo sem sacrifício. Todos nós estamos chocados com a pobreza de milhões de pessoas, e conturbados pelas injustiças que a provocam. Aqueles dentre nós que vivem em meio à opulência aceitam como obrigação sua desenvolver um estilo de vida simples a fim de contribuir mais generosamente tanto para aliviar os necessitados como para a evangelização deles.

  1. Evangelização e Cultura

O desenvolvimento de estratégias para a evangelização mundial requer metodologia nova e criativa. Com a bênção de Deus, o resultado será o surgimento de igrejas profundamente enraizadas em Cristo e estreitamente relacionadas com a cultura local. A cultura deve sempre ser julgada e provada pelas Escrituras. Porque o homem é criatura de Deus, parte de sua cultura é rica em beleza e em bondade; porque ele experimentou a queda, toda a sua cultura está manchada pelo pecado, e parte dela é demoníaca. O evangelho não pressupõe a superioridade de uma cultura sobre a outra, mas avalia todas elas segundo o seu próprio critério de verdade e justiça, e insiste na aceitação de valores morais absolutos, em todas as culturas. As missões muitas vezes têm exportado, juntamente com o evangelho, uma cultura estranha, e as igrejas, por vezes, têm ficado submissas aos ditames de uma determinada cultura, em vez de às Escrituras. Os evangelistas de Cristo têm de, humildemente, procurar esvaziar-se de tudo, exceto de sua autenticidade pessoal, a fim de se tornarem servos dos outros, e as igrejas têm de procurar transformar e enriquecer a cultura; tudo para a glória de Deus.

  1. Educação e Liderança

Confessamos que às vezes temos nos empenhado em conseguir o crescimento numérico da igreja em detrimento do espiritual, divorciando a evangelização da edificação dos crentes. Também reconhecemos que algumas de nossas missões têm sido muito remissas em treinar e incentivar líderes nacionais a assumirem suas justas responsabilidades. Contudo, apoiamos integralmente os princípios que regem a formação de uma igreja de fato nacional, e ardentemente desejamos que toda a igreja tenha líderes nacionais que manifestem um estilo cristão de liderança não em termos de domínio, mas de serviço. Reconhecemos que há uma grande necessidade de desenvolver a educação teológica, especialmente para líderes eclesiásticos. Em toda nação e em toda cultura deve haver um eficiente programa de treinamento para pastores e leigos em doutrina, em discipulado, em evangelização, em edificação e em serviço. Este treinamento não deve depender de uma metodologia estereotipada, mas deve se desenvolver a partir de iniciativas locais criativas, de acordo com os padrões bíblicos.

  1. Conflito Espiritual

Cremos que estamos empenhados num permanente conflito espiritual com os principados e postestades do mal, que querem destruir a igreja e frustrar sua tarefa de evangelização mundial. Sabemos da necessidade de nos revestirmos da armadura de Deus e combater esta batalha com as armas espirituais da verdade e da oração. Pois percebemos a atividade no nosso inimigo, não somente nas falsas ideologias fora da igreja, mas também dentro dela em falsos evangelhos que torcem as Escrituras e colocam o homem no lugar de Deus. Precisamos tanto de vigilância como de discernimento para salvaguardar o evangelho bíblico. Reconhecemos que nós mesmos não somos imunes à aceitação do mundanismo em nossos atos e ações, ou seja, ao perigo de capitularmos ao secularismo. Por exemplo, embora tendo à nossa disposição pesquisas bem preparadas, valiosas, sobre o crescimento da igreja, tanto no sentido numérico como espiritual, às vezes não as temos utilizado. Por outro lado, por vezes tem acontecido que, na ânsia de conseguir resultados para o evangelho, temos comprometido a nossa mensagem, temos manipulado os nossos ouvintes com técnicas de pressão, e temos estado excessivamente preocupados com as estatísticas, e até mesmo utilizando-as de forma desonesta. Tudo isto é mundano. A igreja deve estar no mundo; o mundo não deve estar na igreja.

  1. Liberdade e Perseguição

É dever de toda nação, dever que foi estabelecido por Deus, assegurar condições de paz, de justiça e de liberdade em que a igreja possa obedecer a Deus, servir a Cristo Senhor e pregar o evangelho sem quaisquer interferências. Portanto, oramos pelos líderes das nações e com eles instamos para que garantam a liberdade de pensamento e de consciência, e a liberdade de praticar e propagar a religião, de acordo com a vontade de Deus, e com o que vem expresso na Declaração Universal do Direitos Humanos. Também expressamos nossa profunda preocupação com todos os que têm sido injustamente encarcerados, especialmente com nossos irmãos que estão sofrendo por causa do seu testemunho do Senhor Jesus. Prometemos orar e trabalhar pela libertação deles. Ao mesmo tempo, recusamo-nos a ser intimidados por sua situação. Com a ajuda de Deus, nós também procuraremos nos opor a toda injustiça e permanecer fiéis ao evangelho, seja a que custo for. Nós não nos esquecemos de que Jesus nos previniu de que a perseguição é inevitável.

  1. O Poder do Espírito Santo

Cremos no poder do Espírito Santo. O pai enviou o seu Espírito para dar testemunho do seu Filho. Sem o testemunho dele o nosso seria em vão. Convicção de pecado, fé em Cristo, novo nascimento cristão, é tudo obra dele. De mais a mais, o Espírito Santo é um Espírito missionário, de maneira que a evangelização deve surgir espontaneamente numa igreja cheia do Espírito. A igreja que não é missionária contradiz a si mesma e debela o Espírito. A evangelização mundial só se tornará realidade quando o Espírito renovar a igreja na verdade, na sabedoria, na fé, na santidade, no amor e no poder. Portanto, instamos com todos os cristãos para que orem pedindo pela visita do soberano Espírito de Deus, a fim de que o seu fruto todo apareça em todo o seu povo, e que todos os seus dons enriqueçam o corpo de Cristo. Só então a igreja inteira se tornará um instrumento adequado em Suas mãos, para que toda a terra ouça a Sua voz.

  1. O Retorno de Cristo

Cremos que Jesus Cristo voltará pessoal e visivelmente, em poder e glória, para consumar a salvação e o juízo. Esta promessa de sua vinda é um estímulo ainda maior à evangelização, pois lembramo-nos de que ele disse que o evangelho deve ser primeiramente pregado a todas as nações. Acreditamos que o período que vai desde a ascensão de Cristo até o seu retorno será preenchido com a missão do povo de Deus, que não pode parar esta obra antes do Fim. Também nos lembramos da sua advertência de que falsos cristos e falsos profetas apareceriam como precursores do Anticristo. Portanto, rejeitamos como sendo apenas um sonho da vaidade humana a idéia de que o homem possa algum dia construir uma utopia na terra. A nossa confiança cristã é a de que Deus aperfeiçoará o seu reino, e aguardamos ansiosamente esse dia, e o novo céu e a nova terra em que a justiça habitará e Deus reinará para sempre. Enquanto isso, rededicamo-nos ao serviço de Cristo e dos homens em alegre submissão à sua autoridade sobre a totalidade de nossas vidas.

CONCLUSÃO

Portanto, à luz desta nossa fé e resolução, firmamos um pacto solene com Deus, bem como uns com os outros, de orar, planejar e trabalhar juntos pela evangelização de todo o mundo. Instamos com outros para que se juntem a nós. Que Deus nos ajude por sua graça e para a sua glória a sermos fiéis a este Pacto! Amém. Aleluia!

[Lausanne, Suíça, 1974]

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Transcrito aqui em 15 de Agosto de 2015

Eduardo Chaves
eduardochaves@fatipi.edu.br
echaves@fatipi.net

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