A História da Igreja na Era Moderna: Temas e Problemas de História da Igreja III

É costume considerar a Era Moderna como compreendendo o período que se inicia na metade do século 16 até o início do século 20.

Dois eventos importantes, distantes um do outro apenas poucos meses, serviriam de marco inicial da Era Moderna, um militar-político, o outro, tecnológico-cultural:

  • A Queda de Constantinopla, em 1453
  • A Invenção da Prensa de Tipo Móvel, em 1455

Há pouco desacordo acerca de que o evento mais significativo a marcar o fim da Era Moderna é a Primeira Moderna – em geral representada por seu ano inicial, 1914.

Apesar de ser recomendável não dar muita importância a esses marcos, é possível dizer que a Era Moderna durou por volta de 560 anos – cinco séculos e meio, de meados do século 15 ao início do século 20.

Se colocarmos o foco especificamente na História da Igreja Cristã na Ocidente, podemos dividir a Era Moderna em três sub-eras:

A primeira Sub-Era vai de 1455 a 1648, um período de quase 200 anos, e compreende o auge da Renascença do século 15 e todo o período da Reforma Religiosa da Europa, propriamente dita, começando com a invenção da prensa por Johannes Guttenberg e terminando com a paz de Westfália, que encerrou a Guerra dos 30 Anos dentro das regiões compreendidas pelo Sacro Império Romano, na Europa Central, ficando sacramentado o princípio do cujus regio ejus religio: “a religião de um país será a religião de seu rei” (literalmente, “cujo rei, sua religião”). Também se encerrou nessa época (ao redor de 1650) a chamada Guerra dos 80 Anos entre a Espanha e a Holanda, que culminou com a independência da Holanda do controle espanhol (um pouco antes Portugal havia reconquistado sua independência, livrando-se também do domínio espanhol). Também por volta dessa data, em 1649, o protestante Oliver Cromwell conquistou com mão de ferro o controle político-militar-religioso da Inglaterra, que, sob sua “proteção” (era chamado de Lord Protector), viveu sem rei por basicamente uma década, impedindo definitivamente que o país voltasse a se tornar católico. A década de 1640 também viu, na Inglaterra, a convocação e o encerramento, com a participação de teólogos escoceses, da Assembleia de Westminster, tão cara (em mais de um sentido) para os Presbiterianos – cara no sentido de querida e cara no sentido de que sua aceitação cobrou um preço muito elevado em termos de controvérsias, dissenções e cismas.

No programa atual do curso da Faculdade de Teologia de São Paulo (FATIPI) essa sub-era é extremamente valorizada, sendo objeto de uma disciplina semestral (embora cubra apenas 200 anos; o período antigo e medieval da História da Igreja, mas de sete vezes mais longo, é discutido em uma outra disciplina com a mesma duração).

A segunda Sub-Era vai de 1648 a 1789, ou seja, da Paz de Westfália até a Revolução Francesa, compreendendo cerca de 140 anos. Mas são 140 anos para ninguém colocar defeito.

Politicamente, temos nesse período a consolidação de um novo centro do poder que, embora sendo inicialmente colonial, e ficando na América, conquista sua independência da Inglaterra numa revolução iniciada em 1776, doze anos da Revolução Francesa, com base numa magnífica afirmação de princípios escrita por Thomas Jefferson, a Declaração de Independência, aprovada pelas colônias americanas em 4 de Julho de 1776, e, nos anos seguintes, legando ao novo país e à humanidade sua magnífica Constituição, finalmente aprovada em 1791. A Revolução Francesa, que contou com o apoio de Thomas Jefferson também, que na época era Embaixador Americano na França, encerrou o período que as dinastias eram absolutas porque se cria que o poder real era instituído por Deus e exercido em seu nome. Com as duas Revoluções institui-se a última Sub-Era da Era Moderna, em que o poder será basicamente republicano e separado da religião.

Intelectualmente, a segunda Sub-Era foi um período de gigantes: viveram parcial ou totalmente dentro desses 140 anos nada menos do que:

  • Baruch Spinoza (falecido em 1677)
  • Thomas Hobbes (falecido em 1679)
  • John Locke (nascido em 1632)
  • Isaac Newton (nascido em 1642)
  • Gottfried Wilhelm Leibniz (nascido em 1646)
  • Pierre Bayle (nascido em 1647)
  • George Berkeley (nascido em 1685)
  • Charles Secondat – Montesquieu (nascido em 1689)
  • François-Marie Arouet – Voltaire (nascido em 1694)
  • David Hume (nascido em 1711)
  • Jean-Jacques Rousseau (nascido em 1712)
  • Denis Diderot (nascido em 1713)
  • Adam Smith (nascido em 1723)
  • Immanuel Kant (nascido em 1724)
  • Thomas Paine (nascido em 1737)
  • Thomas Jefferson (nascido em 1743)

Galileu Galilei morreu um pouquinho antes de iniciar essa Sub-Era (em 1642) e René Descartes dois anos depois de seu início (em 1650).

Essa foi a Sub-Era que colocou o Cristianismo na defensiva. A Reforma Protestante atacou a Igreja Católica em nome de um Cristianismo mais puro. Os Iluministas atacaram o Cristianismo em nome da experiência e da razão, caracterizando a religião cristã como fonte de superstição e fanatismo, um movimento atrasado e inquisitorial, que impedia o progresso material e intelectual. O grito de guerra de Voltaire era “esmagai a infame” (em que infame era a Igreja Católica, predominante na França), e o de Kant era “ousai saber”, sugerindo que era preciso coragem para combater ideias cujo prazo de validade já havia vencido há muito tempo. Mas, na minha opinião, a crítica mais danosa foi a de Hume, que partiu para invalidar as fontes e os fundamentos da religião cristã: a idéia de que Deus se revelou na Bíblia, cuja autenticidade e veracidade seria garantida pelos milagres que ela própria relata, e a ideia de que a experiência e a razão são suficientes para nos ensinar o suficiente acerca de Deus, da moralidade e da vida eterna. Para Hume, numa precoce tentativa de explicar histórica, sociológica e psicologicamente a origem da religião (de todas elas, inclusive a cristã), invocou o medo e a esperança como os sentimentos naturais que estão na raiz das religiões: medo de que forças ocultas, de natureza pessoal e espiritual, possam nos prejudicar e a esperança de que através de adoração, sacrifícios e oferendas possamos coloca-las a nosso favor.

Na terceira Sub-Era, de 1789 a 1914 (125 anos), vemos a tentativa de reação por parte do Cristianismo à ofensiva do Iluminismo.

A principal linha de defesa do Cristianismo, a chamada Teologia Liberal, concedeu boa parte das críticas feitas pelo Iluminismo e optou por uma linha de defesa que abria mão, em grande medida, tanto da Revelação como da Razão como fontes e normas da teologia cristã. Em seu lugar invocou, seja o sentimento (a piedade natural) e a sensibilidade, seja a experiência (a religiosa e a moral) – e defenderam a tese de que essas novas bases da teologia não entravam em choque com a crítica cética e racional do Iluminismo.

Alguns cristãos mais conservadores se opuseram ativamente aos teólogos liberais e defenderam a tese de que o Cristianismo deveria resistir, sem abrir mão, seja da revelação bíblica, seja da razão. Procuraram mostrar, argumentando racionalmente, que a Bíblia é confiável – mais do que isso, inerrante e infalível – e em cima dessa premissa, passando a proceder, alegavam, da mesma forma que um cientista, organizando e sistematizando os fatos contidos na Bíblia. Alegavam que a Teologia é uma Ciência tanto quanto, digamos, a Física, no tocante à sua metodologia. A única característica que as diferenciava é que, enquanto a Física buscava seus fatos na natureza, a Teologia o fazia na Bíblia. O Fundamentalismo do final do século 19 e início do século 20 tem raízes nessa tendência (que, por sua vez, tem raízes no chamado Escolasticismo Protestante, liderado, na segunda metade do século 18, por François Turretin.

Outros grupos cristãos, invocando raízes pietistas, tanto no Luteranismo Alemão como na chamada Reforma Radical (Moravianismo, por exemplo), apelaram para a emoção, o entusiasmo, a experiência com Deus, a luz da consciência, a comunhão com os irmãos, etc. para criar um Cristianismo que dava pouca importância aos elementos proposicionais e grande importância à vida cristã renovada e transformada, ao novo nascimento, à forma de se conduzir no mundo. Daí surgiram os Metodistas, no século 18, e, no início do século 20, os Pentecostais.

Ainda outros, denominados fideístas, endossavam as críticas racionais apenas para defender a tese de que o Cristianismo depende da fé, e esta só faz sentido quando inexistem provas, argumentos e evidências em favor do que se crê. Seguindo o Pai da Igreja Tertuliano, pareciam sentir prazer em dizer que “criam exatamente porque era absurdo” o conteúdo da fé cristã: se não fosse, seria aceitável sem necessidade da fé.

Alguns expoentes do Liberalismo se dirigiram para a transformação da realidade social, com vistas à implantação do Reino de Deus na Terra. Batizando seu movimento de “Evangelho Social”, reduziram a fé cristã ao trabalho social de combater a pobreza, reduzir as desigualdades, promover a saúde e a educação.

 Enfim: em resumo serão esses os temas que estaremos a discutir em classe no primeiro semestre de 2016 com a turma do segundo ano.

Em Salto, 3 de Fevereiro de 2016

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