A Questão da Origem do Cristianismo

A Questão da Origem do Cristianismo (6/5 aC a 70 dC)

Conteúdo

  1. Introdução
  2. O Nascimento de Jesus
  3. O Início do Ministério de Jesus
  4. A Morte de Jesus e a Crença na sua Ressurreição
  5. A Experiência do Recebimento do Espírito no Pentecostes
  6. O Concílio de Jerusalém
  7. A Expulsão dos Judeus da Palestina
  8. Conclusão
  9. Notas

1. Introdução

Quando, exatamente, surgiu o Cristianismo? É possível dar uma resposta satisfatória a essa pergunta?

O Cristianismo surgiu cerca de dois mil anos ou vinte séculos ou atrás. A data exata de sua “fundação” é objeto de discussão e controvérsia.

Há, na verdade, cinco eventos que têm sido sugeridos como “fundantes” do Cristianismo:

  1. O Nascimento de Jesus
  2. O Início do Ministério de Jesus
  3. A Morte de Jesus e a Crença em sua Ressurreição
  4. A Experiência do Recebimento do Espírito no Pentecostes
  5. O Concílio de Jerusalém
  6. A Expulsão dos Judeus de Jerusalém

É quase desnecessário observar que a data desses eventos não pode, em nenhum dos casos, ser definida com total precisão. O melhor a que podemos almejar é uma aproximação razoável, que faça algum sentido de informações contidas na Bíblia e fora dela.

2.  O Nascimento de Jesus

Uma data viável para relacionar com a Origem do Cristianismo é a data do nascimento de Jesus, considerado o fundador do Cristianismo por uma boa maioria dos historiadores do Cristianismo e por quase a totalidade dos cristãos.

Os Evangelhos não nos dão informações suficientes, ou suficientemente precisas, para determinar quando, exatamente, Jesus nasceu. Mas eles dão algumas informações que, quando comparadas com informações oriundas de outras fontes, externas ao Cristianismo, nos permitem tirar algumas conclusões – ainda que imprecisas e tentativas.

Relevante para a determinação da data do nascimento de Jesus, uma informação relevante, esta de origem externa à Bíblia, é a data da morte de Herodes. Segundo Mateus, Jesus nasceu “em Belém da Judéia, em dias do rei Herodes” (2:1).  (A referência é a Herodes I, também chamado de Herodes, o Grande, que servia os romanos como rei da Judéia.) Acontece que há evidência de fora da Bíblia de que Herodes morreu, na cidade de Jericó, com cerca de 69 anos, no ano 4 aC (Antes de Cristo) – provavelmente em Março ou Abril [1]. Se, portanto, quando Jesus nasceu Herodes ainda governava a Judéia (como afirma Mateus), e Herodes de fato morreu em Março ou Abril do ano 4 aC (como afirma a maioria dos historiadores), o nascimento de Jesus aparentemente se deu algum tempo antes – talvez no ano 6 ou 5 aC – quando muito nos dois primeiros meses do ano 4 aC [2].

Quase certamente, Jesus não nasceu depois do primeiro trimestre do ano 4 aC e, provavelmente, não nasceu nem no ano 6 aC, nem, muito menos, antes do ano 6 aC) em decorrência do que sabemos sobre a data do início de seu ministério – ocasião em que ele, segundo os Evangelhos, tinha “cerca de trinta anos” (Lucas 3:23) [3].

As considerações seguintes, acerca do Início do Ministério de Jesus, são relevantes para a determinação da data do Nascimento de Jesus e importantes em si próprias, porque a data do Início do Ministério de Jesus também é uma data viável para a Origem do Cristianismo.

Vejamos, pois, a seguir, a questão da data do Início do Ministério de Jesus, que também nos ajuda a sustentar a afirmação de que Jesus não nasceu antes de 6 aC.

2.  O Início do Ministério de Jesus

Jesus só deu início ao seu ministério depois de ter sido batizado por João Batista. Lucas afirma que João Batista nasceu também “nos dias de Herodes, rei da Judéia” (Lucas 1:5). Isabel, mãe de João Batista, era parenta de Maria, mãe de Jesus (Lucas 1:36). Segundo a pista fornecida por esse versículo (Lucas 1:36), João Batista era cerca de seis meses mais velho do que Jesus, pois Isabel, sua mãe, estava no sexto mês de gravidez quando o anjo disse a Maria que também ela, de forma quase tão miraculosamente quanto sua parente, iria dar a luz. (No caso de Isabel, o milagre estaria no fato de que ela já estava avançada em anos, muito além da idade em que mulheres dão à luz; no caso de Maria, o milagre estaria no fato de que ela era virgem).

Diz Lucas que João Batista começou o seu ministério no décimo quinto ano do reinado do Imperador Tibério César (Lucas 3:1) – data esta geralmente fixada no ano 28 [4]. Embora não haja dúvida de que João Batista tenha batizado Jesus (Lucas 3:21), não se sabe em que momento do seu ministério isso se deu. Mas Lucas afirma (Lucas 3:23) que Jesus começou seu ministério (já depois de ter sido batizado e ter passado quarenta dias no deserto, quando foi tentado) quando tinha cerca de trinta anos”.

Se Jesus nasceu por volta do segundo semestre do ano 5 aC, ou no início do ano 4aC (antes de Março ou Abril, quando Herodes morreu [5]), ele estaria com trinta anos por volta do ano 26 aD, e teria sido batizado um pouco antes – algo que não confere com a informação de que João Batista iniciou seu ministério no ano 28.

Há duas saídas possíveis para esse impasse.

A primeira saída é interpretar a frase “cerca de trinta anos” de Lucas 3:23 de forma liberal, como significando “trinta anos, mais ou menos dois”. Se Jesus nasceu por volta do segundo semestre do ano 5 aC ou nos dois primeiros meses do ano 4 aC, no ano 28 ele estaria com trinta e dois anos, pronto para iniciar seu ministério, depois de ter sido batizado por João, naquele mesmo ano, e depois de ter sido tentado no deserto durante quarenta dias. Mas essa saída nos obriga a uma interpretação, talvez, liberal demais de Lucas 3:23. Mas, liberal demais ou não, essa hipótese não é absurda.

A segunda saída é recorrer ao fato (sabido através de fontes externas) de que Tibério César, embora tenha assumido o trono imperial sozinho somente depois da morte de Augusto César, em Setembro de 14, de fato havia sido elevado a uma posição mais ou menos equivalente à de “Imperador Adjunto” cerca de dois anos antes, ou seja, em algum momento no ano 12. Assim, se o décimo quinto ano do reinado de Tibério César for contado a partir dessa data, o início do ministério de Jesus cai para o ano 26 (quando termina o décimo quarto ano, e começa o décimo quinto ano, do reinado de Tibério Cesar). Neste caso, apesar do qualificativo “cerca” que ele usou, Lucas estaria sendo bem preciso ao dizer que Jesus iniciou seu ministério quando tinha por volta de trinta anos.

Assim, o ministério de Jesus provavelmente começou no ano 26 ou no ano 28.

Precisão maior do que esta é difícil de alcançar.

4.  A Morte de Jesus e a Crença na sua Ressurreição

A morte de Jesus representa o fim de seu ministério. A determinação da data de sua morte depende, portanto, da data do início do ministério e de sua duração – questões que discutimos no capítulo anterior.

Mas quanto tempo durou o ministério de Jesus? Também essa questão é controvertida.

Os três Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), em sua narrativa da vida de Jesus, fazem referência a apenas uma Páscoa ao longo de todo o seu ministério. O Evangelho de João, por outro lado, faz referência a três Páscoas (João 2:13, 6:4 e 11:55-57).

Assim, há quem considere que o ministério Jesus tenha durado apenas um ano, um pouco mais ou um pouco menos, dando maior credibilidade ao relato dos Evangelhos Sinóticos, e há quem considere que seu ministério tenha durado três anos, ou até mais um pouco, dando maior credibilidade ao relato do Evangelho de João.

Assim, o ministério de Jesus durou cerca de um a três anos.

  • SE o ministério de Jesus começou no ano 26, e durou apenas um ano, sua morte teria se dado por volta do ano 27 (quando Jesus tinha trinta e um anos).
  • SE o ministério de Jesus começou no ano 26, e durou três anos, sua morte teria se dado por volta do ano 29 (quando Jesus tinha trinta e três anos – idade tradicionalmente associada à duração de sua vida).
  • SE o ministério de Jesus começou no ano 28, e durou apenas um ano, sua morte teria se dado por volta do ano 29 (quando Jesus tinha trinta e três anos – a mesma idade alcançada no item anterior).
  • SE o ministério de Jesus começou no ano 28, e durou três anos, sua morte teria se dado por volta do ano 31 (quando Jesus tinha trinta e cinco anos).

Assim, a data da morte de Jesus ficaria situada entre os anos 27 e 31, a data mais provável sendo o ano 29. Neste caso, Jesus teria morrido aos trinta e três anos (conforme mantém a tradição).

Sua ressurreição teria se dado alguns dias depois e suas aparições aos discípulos nos quarenta dias que se seguiram.

Mais uma vez, maior precisão do que essa é difícil obter.

O verbete “Cristianismo Primitivo” na Wikipedia opta por defender o ponto de vista de que o Cristianismo teve origem com a morte e a crença na ressurreição de Jesus. Diz ele:

“A ressurreição de Cristo é um dos fatos de maior importância para os primeiros anos do cristianismo e, ao mesmo tempo, o mais enigmático. Todos os evangelhos falam do evento da ressurreição de Cristo e da aparição do Messias diante dos discípulos três dias após sua crucificação. ( . . . ) Ao que parece, nem todos os apóstolos estavam de acordo em relação aos eventos. ( . . . ) De toda forma, mesmo que não possamos determinar exatamente o que se passou na ressurreição, a crença no retorno de Jesus foi essencial para modelar o cristianismo primitivo.” [6]

5.  A Experiência do Recebimento do Espírito no Pentecostes

O Dia de Pentecostes foi celebrado logo depois de sua morte, e, portanto, não altera significativamente, os dados aqui apresentados: o acontecimento descrito em Atos 2 provelmente aconteceu entre os anos 27 e 31, com maior probabilidade recaindo sobre o ano 29.

O verbete “Christianity in the 1st Century” na Wikipedia opta por defender a tese de que o Cristianismo teve sua origem, propriamente dita, no Pentecostes. Diz ele:

“A Igreja Cristã passou a existir plenamente no Pentecostes, quando, segundo o relato das Escrituras, os apóstolos receberam o Espírito Santo, saíram da reclusão em que se mantiveram depois da morte e da ressurreição de Jesus, e começaram a pregar e a espalhar a sua mensagem” [7].

6.  O Concílio de Jerusalém

Sempre houve divergências e até mesmo cisões dentro do Cristianismo — mesmo no Cristianismo nascente, cuja identidade não estava ainda plenamente estabelecida.

Por volta dos anos 49-50 ficou caracterizado, no chamado Concílio de Jerusalém (um evento descrito em Atos dos Apóstolos, capítulo 15:1-35, e comentado por Paulo na Epístola aos Gálatas, capítulo 2:1-10), o princípio de uma divisão entre os Cristãos Judeus, cuja comunidade tinha sede em Jerusalém, e os Cristãos Gentios, com sede em Antioquia. Pedro e Tiago (este o irmão de Jesus) eram os dois principais líderes da comunidade cristã de Jerusalém (se de forma conjunta ou com a alguma hierarquia, não se sabe). Paulo era o principal líder da comunidade cristã de Antioquia (ajudado por Barnabé – aqui a presença de hierarquia é clara).

O principal pomo de discórdia era a questão da circuncisão, que alguns membros da comunidade de Jerusalém não se conformavam que não fosse praticada entre os cristãos gentios de Antioquia, convertidos por Paulo.

Paulo, em Gálatas, dá a entender que a reunião tenha acontecido por iniciativa sua, que teria recebido uma revelação divina orientando-o a busca-la (Gálatas 2:2). O relato de Atos dá a entender procedimento diverso. Depois de observar que teria havido “contenda e não pequena discussão” acerca da circuncisão entre Paulo e Barnabé, de um lado, e, do outro, “alguns indivíduos que desceram da Judeia” e afirmavam que incircuncisos não poderiam se salvar, o autor de Atos afirma que “resolveram [sem deixar claro é o sujeito do verbo] que esses dois e alguns outros dentre eles subissem a Jerusalém, aos apóstolos e presbíteros, com respeito a esta questão.” (15:1-3).

De quem quer que seja que tenha partido a iniciativa, Paulo e Barnabé foram até Jerusalém – e segundo o relato de Paulo em Gálatas, levaram com eles, como um teste, Tito, que era gentio e incircuncidado (Gálatas 2:3). Segundo o relato de Atos, os três foram bem-recebidos pela igreja de Jerusalém, embora alguns fariseus convertidos tenham causado um pouco de mal-estar, insistindo que os incircuncisos da comitiva visitante (aparentemente apenas Tito) fosse circuncidados e todos eles cumprissem o que manda a Lei (Atos 15:4-5).

As divergências nos relatos prosseguem. O de Atos afirma que a questão foi examinada por um comitê composto dos apóstolos e presbíteros (Atos 15:6), e, “havendo grande debate”, Pedro tomou a palavra e disse: “Irmãos, vós sabeis que, desde há muito, Deus me escolheu dentre vós para que, por meu intermédio, ouvissem os gentios [!] a palavra do evangelho, e cressem” (Atos 15:7). Disse ainda que Deus deu o Espírito Santo também aos gentios, e que estes foram salvos pela graça por meio da fé, não havendo distinção entre judeus e gentios, e que não seria sensato impor aos gentios “um jugo que nem nossos pais puderam suportar, nem nós” (15:8-11). Certamente Pedro soa muito parecido com Paulo aqui… É de certo modo estranho que Pedro assuma para si a função de ser “apóstolo dos gentios”, mas ele provavelmente deve estar se referindo ao episódio de seu encontro com Cornélio, registrado em Atos 10.

Depois de Pedro falar, a palavra foi dada a Paulo e Barnabé, que, segundo Atos, simplesmente relataram “quanto sinais e prodígios Deus fizera por meio deles entre os gentios” (Atos 15:12).

Quem finalmente tomou a decisão parece ter sido Tiago, que concluiu que “não devemos perturbar aqueles que, dentre os gentios, se convertem a Deus”. Mas Tiago propôs que se deveria escrever a eles recomendando-lhes apenas que (segundo Atos 15: 20 e 29) eles se abstivessem de:

  • [Comer] coisas sacrificadas aos ídolos
  • [Comer] sangue
  • [Comer] carne dos animais sufocados
  • [Manter] relações sexuais ilícitas

Por inferência, nada contra as relações sexuais lícitas…

Decidiu-se ainda, na sequência, que um grupo de cristãos de Jerusalém iria acompanhar Paulo e Barnabé até Antioquia para entregar a carta (Atos 15:22-29), o que foi feito, resolvendo-se o problema a contento de todos (Atos 15:30-35).

O relato de Paulo em Gálatas 2:1-10 é bem diferente.

Primeiro, Paulo ressalta que nem sequer Tito, “que estava comigo, sendo grego, foi constrangido a circuncidar-se” (Gálatas 2:3), nada falando do mal-estar que, segundo Atos, foi causado pelos fariseus convertidos que insistiam exatamente nisso.

Segundo, Paulo faz uma referência “àqueles, que pareciam ser de maior influência” (na reunião ou na igreja de Jerusalém, não fica claro) e acrescenta, em parênteses: “quais tenham sido, outrora, não me interessa; Deus não aceita a aparência do homem” (ênfase acrescentada). Quanto a esses, esclarece que “nada me acrescentaram, pelo contrário, quando viram que o evangelho da incircuncisão me fora confiado, como a Pedro o da circuncisão”. (Paulo, aqui, corrige o discurso de Pedro.) Quando os participantes na reunião “conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas [Pedro] e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles para a circuncisão; recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer” (Gálatas 2:6-10).

Várias coisas interessantes aqui.

Primeiro, quem seriam aqueles que “pareciam ser de maior influência”? Num primeiro momento, parece que seriam Pedro e Tiago, os dois que, segundo Atos, fizeram uso da palavra. No entanto, essa interpretação não se coaduna muito bem com a referência a Tiago e Pedro (chamado de Cefas), feita um pouco adiante.

Segundo, Paulo faz questão de registrar que o apóstolo dos gentios é ele, e que Pedro seria o apóstolos dos judeus, e que ele teria dito isso na frente dos apóstolos e presbíteros de Jerusalém, entre os quais estava Pedro – sem que, aparentemente, tivesse havido qualquer questionamento.

Terceiro, Paulo não diz absolutamente nada acerca do envio de uma carta da igreja de Jerusalém à igreja de Antioquia, muito menos acerca da entrega em mãos dessa carta por parte de uma comitiva composta de crentes da igreja de Jerusalém.

Quarto, Paulo afirma que houve, sim, um acordo entre eles, mas discrepa em dois aspectos do relato de Atos: o acordo foi firmado através de um aperto da mão direita, não do envio de uma carta, e o conteúdo do acordo era que Paulo e Barnabé se ocupariam dos gentios e Pedro e Tiago se ocupariam dos Judeus. Absolutamente nada acerca de carne sacrificada aos ídolos, sangue, animais sufocados, muito menos relações sexuais ilícitas.

Quinto, Paulo sugere que a única coisa que os cristãos de Jerusalém lhes recomendaram foi que não se esquecessem dos pobres (evidentemente, os de Jerusalém), algo que dá a impressão de que o acordo entre eles não foi tão “kosher” (puro, limpo) quanto parecia… Nada sobre isto em Atos 15.

Em suma: o entrevero parece ter sido mais feio do que o relato de Atos deixa entrever… A sequência do texto de Gálatas comprova isso, ao relatar uma ocasião “quando Cefas [Pedro] veio a Antioquia” e exibiu conduta que o tornou “repreensível”, e Paulo fez justamente isso: repreendeu-o e “resisti[u]-lhe face a face” (Gálatas 2:11).

A conduta repreensível de Pedro foi a seguinte. Ele fora a Antioquia, aparentemente sozinho, e lá estava comendo, sem problema algum, com os gentios. Mas quando chegaram “alguns da parte de Tiago”, Pedro se acovardou, separando-se dissimuladamente dos gentios, de modo a dar a impressão de que não estava comendo com eles. Até Barnabé, pelo jeito, se acovardou e foi comer junto dos judeus, deixando os gentios. Paulo ficou muito bravo, e “disse a Cefas [Pedro], na presença de todos: se, sendo tu judeu, vives como gentio e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?” (Gálatas 2:12-14). Touché!

Muito interessante o comportamento de Pedro. Ele, que já havia traído a Jesus, durante os dias que precederam à morte de Jesus, e que já tinha procurado disfarçar o fato de que era discípulo de Jesus, agora, demonstra que tem medo de Tiago e procura fazer de conta que não estava fazendo o que de fato estava fazendo, a saber, comendo com os gentios, sem problema algum, até que a “patrulha” chegou… Mereceu inteiramente a repreensão pública de Paulo (que não era de deixar as coisas depois, para salvar a face do colega). Mas o incidente indica que as coisas não ficaram tão bem resolvidas como deveriam no chamado Concílio de Jerusalém…

De qualquer maneira, uma divisão formal não se consumou na ocasião, e isto por uma razão simples: porque se concordou numa divisão de fato de atribuições, com base no alvo do trabalho missionário: se judeu, fica Pedro como responsável; se gentio, fica Paulo o responsável. E cada um exige daqueles que aborda o que lhe parece sensato e razoável.

Os Cristãos Judeus de Jerusalém (e, presume-se, do restante da Palestina), que viam o Cristianismo não como uma religião independente, mas como um ramo ou uma seita do Judaísmo (semelhante, do ponto de vista formal, à seita dos Saduceus), continuavam a adorar o Deus dos judeus da forma que sempre o fizeram, e na Sinagoga, vivendo de modo a obedecer as Escrituras dos Judeus (que os cristãos gentios, posteriormente, também adotaram, dando-lhe o nome de Velho Testamento) e a seguir as leis dos judeus, inclusive as leis acerca dos rituais de purificação (que incluíam normas acerca do conteúdo e do processo de alimentação, acerca da vida sexual, acerca da circuncisão, para homens, etc.) [8].

Os Cristãos Gentios de Antioquia e de outros locais, tiveram reconhecidas, nessa ocasião, a validade do ministério de Paulo aos Gentios e a legitimidade das práticas gentias que Paulo sancionava, não lhes sendo, portanto, necessário (no caso dos homens) se circuncidar e (para todos, homens e mulheres) obedecer os exigentes rituais de purificação exigidos pela religião judaica.

Parece, pelo que ele diz a Pedro na altercação em Antioquia, que Paulo entendia que, se os Gentios estão dispensados do cumprimento da Lei, também os judeus o estão, e Pedro não tinha necessidade de dissimular, diante de judeus mais rigoristas, o que estava fazendo. Pedro, porém, parece ter optado por não escandalizar ninguém. Quando judeus mais conservadores não estavam por perto, ele compartilhava da refeição com os gentios. Quando, porém, judeus mais conservadores (os “da parte de Tiago”) chegaram, ele optou por não escandaliza-los. Em outro lugar, quando ele diz “todas as coisas me são lícita, mas nem tudo me convém”, Paulo parece estar de acordo com ele.

Houve, portanto, nessa ocasião, algum acordo em Cristãos Judeus e Cristãos Gentios, mas aparentemente não muito bem negociado. Ao fazerem esse acordo, os principais atores no concílio estavam, na realidade, sacramentando uma cisão no Judaísmo, que colocava os Cristãos Gentios fora de seu âmbito tornando, assim, o Cristianismo Gentio, que em pouco tempo seria hegemônico, um movimento ou uma religião independente, não mais uma seita judaica [9].

Com essa decisão, os Cristãos Judeus, com o tempo, ou acabariam sendo absorvidos pela nova religião (mesmo que continuassem a seguir alguns dos rituais judaicos), ou seriam reabsorvidos pelo Judaísmo, deixando o Cristianismo.

Por causa desse episódio, alguns historiadores datam o início do Cristianismo, propriamente dito, como movimento religioso autônomo, separado do Judaísmo, a partir desse Concílio de Jerusalém. Eu tendo a concordar com eles.

Por fim, dois fatos nesses relatos parecem indicar que havia uma hierarquia na liderança de Jerusalém, e que Tiago era superior a Pedro. Em primeiro lugar, foi Tiago que, segundo o relato de Atos, decidiu e comunicou sua decisão, que não foi tomada de comum acordo com Pedro. Em segundo lugar, Pedro tinha medo de Tiago, segundo o relato de Gálatas – ou, pelo menos, medo de desagrada-lo, algo que não combina bem com gestão colegiada.

7. A Expulsão dos Judeus da Palestina

No ano 66 houve uma revolta dos Judeus contra os Romanos na Palestina que foi significativamente importante e sangrenta para ser denominada, em retrospectiva, de Primeira Guerra Romano-Judaica (houve mais duas revoltas dos judeus contra os romanos em anos subsequentes, mas fora da Palestina). A revolta, em si, na parte central da Judeia, teve fim, segundo alguns autores, no ano 70, com a destruição do (segundo) Templo Judaico (ainda não totalmente reconstruído de guerras anteriores, que levaram aos cativeiros descritos no Antigo Testamento) e a expulsão dos judeus da Palestina.

No entanto, muitos judeus fugiram para o sul da Palestina, para a área de Masada, onde erigiram uma fortaleza, que só foi tomada pelos romanos em 74, razão pela qual a maioria dos autores considera o ano de 74 como a data final da revolta.

A queda e total destruição de Jerusalém em 70 resultou numa nova Diáspora dos judeus, inclusos nela os judeus cristãos (ou cristãos judaicos). Com isso, o Cristianismo com vínculos judaicos mais estreitos se moveu para além das divisas orientais e meridionais do Império Romano, alcançando a Síria e além (talvez até a Índia), no Leste, e o Egito, mais ao Sul (Sudoeste). Mas cristãos gentios (não-judeus) puderam permanecer na Palestina, fato que força a conclusão irônica que, a partir dessa data, a Igreja Cristã de Jerusalém passou a ser uma Igreja Gentia, não mais Judaica.

Mark Noll, conhecido historiador do Cristianismo, considera que, no ano 70, houve uma “emancipação forçada” da Igreja Cristã em relação ao Judaísmo. Para ele, aquilo que começara no Concílio de Jerusalém, foi concluído agora, vinte anos depois [10].

Com isso, o Cristianismo Gentio ficou mais e mais predominante, passando oportunamente a ser visto simplesmente como o Cristianismo.

8.  Conclusão

Em resumo, tudo indica que Jesus nasceu nos anos 6 ou, mais provavelmente, 5 aC, possivelmente em meados do ano 5 aC, (mas talvez até mesmo bem no começo do ano 4 aC), e que tenha morrido entre os anos 27 e 31, com uma idade entre trinta e um e trinta e cinco anos, depois de realizar um ministério que durou de 1 a 3 anos e que pode, portanto, ter tido início nos anos 26 ou 28 e término entre os anos 27 e 31, com sua morte.

Que relevância tem essas conclusões para a questão da origem (ou da “fundação”) do Cristianismo?

Primeiro, não faz sentido considerar a data do Nascimento de Jesus (6 a 4 aC) como a data do surgimento do Cristianismo (apesar de nossas celebrações natalinas). Jesus nasceu como judeu e viveu como judeu, estudando as Escrituras dos judeus e adorando o Deus dos judeus. Apesar do relato de sua discussão com os doutores no Templo, quando tinha 12 anos de idade (vide Lucas 2:41-52), os anos anteriores ao seu batismo e ao início do seu ministério não podem, stricto sensu, ser considerados como parte da História do Cristianismo ou da História da Igreja Cristã – exceto em um sentido sentimental.

Segundo, a tese de que o Cristianismo teve início com o Ministério de Jesus (26 ou 28) é um pouco mais plausível. O problema maior é que o Cristianismo se tornou, nos anos seguintes, basicamente uma religião gentia, com algumas dívidas para com o Judaísmo, mas desvinculada dele, enquanto o Ministério de Jesus foi o ministério de um judeu, entre os judeus e para os judeus.

É verdade que há o “Grande Mandado”: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15), que dá aos Evangelhos um tom mais inclusivo, na verdade quase universalista, bem mais próximo da mensagem paulina, como se Jesus não houvesse pregado apenas para os judeus.

No entanto, há consenso entre os estudiosos, de que o trecho compreendido pelos versículos 9-20 do capítulo 16 do Evangelho de Marcos não é autêntico, pois não consta dos mais antigos e mais importantes manuscritos do Novo Testamento. Até as Notas da insuspeita Bíblia de Estudo de Genebra observam, em relação a esse trecho:

“Essas palavras [Marcos 16:9-20] não ocorrem em alguns manuscritos antigos importantes. A ausência dessa passagem, bem como seu estilo e vocabulário diferentes, levantam sérias dúvidas quanto à sua autenticidade”. [11]

Terceiro, a tese de que o Cristianismo começou com a Morte de Jesus e a Crença na Sua Ressurreição (anos 27 a 31) é um pouco mais plausível do que a tese anterior. É inegável, porém, que Jesus  morreu como judeu – como afirmava a placa em cima de sua cruz, mesmo descontada sua possível ironia: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus” (Iēsus Nazarēnus, Rēx Iūdaeōrum – INRI), sendo sua morte solicitada e induzida pelos líderes judeus, segundo os Evangelhos (João 19:19; compare-se Mateus 27:37, Marcos 15:26, Lucas 23:38) [12].

Seria possível argumentar que o fato de que Jesus foi morto por solicitação e indução dos líderes religiosos judeus significaria que o Judaísmo não reconheceu sua “judaicidade” e que isto se deu porque sua mensagem era vista, pelos judeus, como incompatível com suas crenças e subversiva delas.

Mesmo assim, os próprios discípulos ficaram arrasados com a morte de seu Mestre e pareciam considerar que essa morte representava mais o fim do que o verdadeiro início de seu “movimento”.

É verdade que os relatos das aparições de Jesus vivo após a sua morte produziram, segundo alguns, uma radical mudança de disposição nos discípulos de modo a tornar a data do episódio Morte + Aparições de Jesus uma candidata plausível para a data da origem do Cristianismo.

Quarto, há o Dia de Pentecostes (quarenta dias depois da Morte + Aparições, nos anos 27 a 31).

Nesta hipótese o Cristianismo teria surgido entre 27 e 31, logo depois da morte de Jesus, por ocasião da festa de Pentecostes (Atos, capítulo 2), quando os apóstolos, com sua frustração já um pouco revertida com a experiência e os relatos das aparições, presenciaram um novo evento fantástico em que “línguas, como de fogo” (Atos 2:3) fizeram com que pessoas vindas do mundo inteiro (mundo daquela época, em que quase todo mundo falava Grego) entendessem, cada um em sua língua nativa, o que estava sendo dito pelos apóstolos, provavelmente em Aramaico.

Registre-se que milagres eram, segundo tudo indica, experiências comuns no mundo daquela época – pelo menos na Palestina. Isso inclui até milagres que envolvem a ressurreição de quem está morto. O próprio Novo Testamento relata pelo menos seis ocasiões em que mortos foram ressuscitados, não incluindo o caso de Jesus [13]. Os relatos da ressurreição de Jesus e as aparições que a comprovariam não parecem ser suficientes, por não serem suficientemente únicos, para explicar a mudança de ânimo e disposição dos discípulos, de derrotados para linha de frente de um movimento que iria revolucionar o mundo.

O que aconteceu no Dia de Pentecostes, porém, em especial por, simbolicamente, representar o reverso da medalha da Torre de Babel, parece ser um evento capaz de suportar o peso de marcar a data do início do Cristianismo.

No entanto…

A festa de Pentecostes era uma celebração tipicamente judaica. Pedro, em seu discurso, o ponto alto do evento, disse: “Varões judeus e todos os habitantes de Jerusalém, tomai conhecimento disto e atentai para as minhas palavras” (Atos 2:14; ênfase acrescentada). Ou seja: trata-se de uma típica celebração judaica. Para explicar o que estava acontecendo ali ele invocou as profecias das Escrituras judaicas. Mais adiante disse: “Varões israelitas: atendei a estas palavras” (Atos 2:22; ênfase acrescentada). Ou seja: Pedro continua a se dirigir exclusivamente a judeus. Ele até mesmo acusa seus concidadãos de terem matado Jesus (Atos 2:23) e cita mais uma vez uma profecia das Escrituras judaicas para explicar a pessoa de Jesus, que ele descreve como “Jesus, o Nazareno” (Atos 2:22). Quando os apóstolos batizaram três mil pessoas (Atos 2:37-41), foram três mil judeus os batizados – judeus da Diáspora, que vinham de outros países até Jerusalém para celebrar o Pentecostes, e que nem falavam mais hebraico ou aramaico – razão pela qual houve necessidade da “tradução simultânea” feita pelas “línguas como de fogo” (Atos 2:3). E eles “se converteram” e foram batizados, “em nome de Jesus”, mas continuaram judeus, obedecendo a todos os rituais e normas da religião judaica.

Em resumo: durante o Pentecostes, ainda não havia o Cristianismo como uma religião diferente do Judaísmo, como uma religião universalista (e não étnica, nacionalista e exclusivista) – havia apenas uma tentativa de reformar um pouco o Judaísmo. Paulo, o principal responsável pela evangelização dos gentios, o Apóstolo dos Gentios, não era ainda sequer parte do movimento…

Quinto, resta o Concílio de Jerusalém (49/50) como data mais plausível para a origem do Cristianismo – na minha opinião.  

Nessa ocasião, como vimos, Paulo, o apóstolo que não fazia parte dos Doze originais, confrontou as lideranças de Jerusalém, em especial Pedro e Tiago, este conhecido como Tiago o Justo, “o irmão do Senhor”, exigindo o reconhecimento do seu apostolado intempestivo e da sua missão de levar o Evangelho para além dos limites do Judaísmo, para o mundo gentio. Não me parece haver dúvida de que houve uma séria confrontação nessa ocasião. Mas foi resolvida de forma favorável a Paulo, como vimos atrás.

Assim, concluo (no sentido de tirar tentativamente a conclusão, não de terminar) que a tese de que o Cristianismo teve início nos anos 49/50, no Concílio de Jerusalém, é a mais plausível.

Essa conclusão de modo algum é incompatível com a tese de Mark Noll de que a data da “alforria” do movimento cristão em relação ao Judaísmo foi o ano 70. Para mim, a decisão foi oficialmente tomada no Concílio de Jerusalém. A expulsão dos judeus da Palestina durante a guerra entre judeus e romanos não foi um evento de que cristãos efetivamente tenham participado, exceto, sendo judeus, como vítimas. A decisão conscientemente tomada de que, “o Judaísmo é uma coisa, o Cristianismo, outra”, foi tomada no Concílio de Jerusalém. Paulo, em seguida, cobrou de Pedro a coerência de que, se os cristãos gentios não precisam se circuncidar (se homens), nem seguir as regras de purificação do Judaísmo, nem os cristãos judeus teriam de fazer isso. Ou seja: os cristãos estão livres da Lei (a chamada Lei Levítica). Isso não quer dizer que deixassem de considerar o Decálogo como válido.

Termino indicando e recomendando a leitura de um texto escrito por um historiador que, embora não seja especializado em História da Igreja, escreveu uma instigante História do Cristianismo, Paul Johnson. Trata-se do primeiro capítulo do seu livro, capítulo que tem o título “Ascensão e Resgate da Seita de Jesus (50 a.C.-250 d.C.)” [14].  Foi esse texto que me convenceu a assumir e defender a posição que aqui defendo.

9. Notas

[1]  Uma nota da Bíblia de Estudo de Genebra (op.cit.) para Mateus 2:1 não hesita em dizer que “Herodes, o Grande, morreu em abril do ano 4”. Segundo Flávio Josefo, historiador judaico-romano antigo (viveu de 37 ou 38 a cerca de 100), Herodes, o Grande, morreu logo depois de um eclipse lunar. Embora eclipses lunares não sejam coisas incomuns, vários historiadores concluíram que o eclipse em questão foi o que teve lugar em 13 de março do ano 4 aC. Vide Larry R. Lassiter, “Clues to the Birthdate of Jesus”, escrito em 2004, e postado no blog Crusade Church: Points of Truth Ministries, acessível em http://www.pointsoftruth.com/articles/jesusbirth.html.

[2] Outra nota da Bíblia de Estudo de Genebra (op.cit.) para Mateus 2:1 não hesita em dizer que “Jesus deve ter nascido no ano 5 ou 6 aC”. Compare-se também Wikipedia, verbete “Herod the Great”, https://en.wikipedia.org/wiki/Herod_the_Great. Para o verbete “Herodes” na edição em Português da Wikipedia, vide https://pt.wikipedia.org/wiki/Herodes.

[3] Os cristãos mais conservadores não se sentem muito bem com a tese de que Jesus não nasceu no “Dia de Natal do Ano Zero”… Para início de conversa nunca houve um ano zero. Provavelmente sentir-se-ão pior ainda com a tese de que o nascimento de Jesus provavelmente não foi em Belém da Judéia, mas, sim, em Nazaré, mesmo. Essa tese é defendida por John Dominic Crossan, Jesus: A Revolutionary Biography, op.cit. (Nota 12), pp.20-23. Diz ele: “É meio triste ter de dizer isso, porque a história sempre teve um tom cativante, mas o relato da viagem de Nazaré até Belém para o censo e registro para pagamento de impostos é pura ficção, uma criação da imaginação de Lucas para conseguir colocar os pais de Jesus em Belém na ocasião de seu nascimento”. [Tradução de Eduardo Chaves].

[4] Tibério César assumiu o trono do Império Romano em Setembro de 14 dC, quando da morte de Augusto César (este o primeiro Imperador Romano, que reinou de 27 aC a 14 dC). O décimo quinto ano do reinado de Tibério César começa, portanto, em Setembro de 28. Mas vide a observação a seguir feita no texto, de que Tibério se tornou algo semelhante a um “Imperador Adjunto” de Augusto César já por volta do ano 12 dC. Essa data é importante para a determinação da data do início do Ministério de Jesus.

[5] Segundo uma pista dada por Mateus 2:16, Jesus provavelmente não nasceu muito próximo da morte de Herodes (Março ou Abril de 4 aC), porque Herodes, depois do nascimento de Jesus, Herodes, percebendo-se enganado pelos Magos, ainda teve tempo de mandar matar todos os meninos de menos de dois anos em Belém e arredores.

[6] Wikipedia, verbete “Cristianismo Primitivo”, https://pt.wikipedia.org/wiki/Cristianismo_primitivo.

[7] Wikipedia, verbete “Christianity in the 1st Century”, https://en.wikipedia.org/wiki/Christianity_in_the_1st_century.

[8] Eis o que diz Henry Chadwick: “O Cristianismo Primitivo é um círculo com Jerusalém em seu centro. Os primeiros cristãos foram judeus que se distinguiam de seus conterrâneos apenas pelo fato de que eles acreditavam que a antiga esperança do povo de Deus havia se cumprido: Jesus de Nazaré era o ungido de Deus. Um profeta havia se levantado entre eles, Deus havia visitado o seu povo. Mas esse novo evento não abolia o passado. Ele era a realização do plano de Deus. Os cristãos mais antigos não tinham consciência de nenhuma descontinuidade entre a nova e a antiga aliança. A palavra ainda devia ser destinada a Israel, e os cristãos primitivos entenderam sua tarefa como uma missão destinada ao seu próprio povo, que muito provavelmente não iria se deixar persuadir por uma mensagem que lhes dizia que a lei Mosaica estava abolida”. Henry Chadwick, “The Circle and the Ellipse: Rival Concepts of Authority in the Early Church”, in Henry Chadwick and Hans von Campenhausen, Jerusalem and Rome: The Problem of Authority in the Early Church (Fortress Press, Philadelphia, 1966), p.23. [Ênfases acrescentadas].

[9] A discussão mais frutífera que eu conheço do Concílio de Jerusalém é a feita por Johannes Weiss, em seu livro Earliest Christianity: A History of the Period AD 30-150 (Harper, New York, 1937), tradução do Alemão Das Urchristentum (Vandenhoeck & Rupprecht, Göttingen, 1917), Capítulo XI do Primeiro Volume da edição americana, intitulado “The Struggle for the Freedom of the Gentile Christians”, pp.258-276.

[10] Mark Noll, Turning Points: Decisive Moments in the History of Christianity (Baker Books, Grand Rapids, 1997), tradução brasileira sob o título Momentos Decisivos na História do Cristianismo (Editora Cultura Cristã, São Paulo, 2000), pp.25-34 da tradução brasileira.

[11] Bíblia de Estudo de Genebra, op.cit..

[12] A frase, segundo o Evangelho de João, foi redigida por Pilatos. Os líderes judeus não queriam que a frase afirmasse (como afirma) que ele Jesus era o Rei dos Judeus: sugeriram que Pilatos afirmasse que Jesus dizia ser o Rei dos Judeus. Mas Pilatos teria respondido: “O que escrevi escrevi” (Joã0 19:20-22).

[13] Lucas 7:11-17 (o filho da viúva de Naim; por Jesus); Lucas 8:49-56 (a filha de Jairo; também por Jesus); João 11:1-45 (Lázaro, o irmão de Marta e Maria; por Jesus); Mateus 27:52-53 (várias pessoas, por ocasião da crucificação de Jesus); Atos 9:36-43 (Tabita, ou Dorcas; por Pedro); Atos 20:7-12 (Eutico; por Paulo).

[14] Paul Johnson, A History of Christianity, op.cit., pp.9-80 da edição brasileira.

Salto, SP, 21 de Novembro de 2016; revisado em 11 de Março de 2017, ainda em Salto.

Eduardo Chaves
Professor de História da Igreja / FATIPI

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