Uma Tese Liberal sobre o Período Apostólico

Uma Tese Liberal Acerca do Período Apostólico

Conteúdo

1. Introdução

2. A Mensagem de Jesus e seus Discípulos

3. A Mensagem de Paulo

4. A Evolução Posterior

5. Notas

1. Introdução

Discuto aqui uma questão, relacionada ao Período Apostólico, que é extremamente importante para o entendimento da História da Igreja posterior, em especial da História do Pensamento Cristão, nos seguintes marcos:

  • A Mensagem de Jesus e seus Discípulos Originais
  • A Mensagem de Paulo
  • A Teologia Medieval Clássica (Agostinho de Hipona)
  • A Teologia Medieval Escolástica (Tomás de Aquino)
  • A Teologia Reformada (Martinho Lutero e João Calvino, em especial)
  • A Teologia Liberal (Adolf von Harnack, em especial)

(Vou juntar os últimos quatro itens numa seção só).

Para tanto, vou começar fazendo uso de um livro acerca da História do Pensamento Cristão escrito por um historiador e teólogo liberal americano, Arthur Cushman McGiffert (1861-1933) [1], do final do século 19 e começo do século 20. Faço isso pela clareza e pelo caráter resumido de sua exposição.

2. A Mensagem de Jesus e seus Discípulos

Eis o que diz McGiffert sobre a mensagem e a autoconsciência de Jesus, e sobre a mensagem de seus discípulos originais (sem Paulo) e a visão que eles tinham de Jesus.

[Acerca de Jesus:] “Mesmo que Jesus talvez tenha contemplado a possibilidade de que, em último caso, também outros, além dos Judeus, viessem a estar incluídos no Reino de Deus, não há razão adequada para supor que ele contemplasse algo como uma Missão Gentia, menos ainda um Cristianismo Gentio, divorciado do Judaísmo” [2].

[Acerca dos discípulos (os onze, ou, se Matias estava entre eles, os doze reconstituídos):] “Não foi, em nenhum sentido, uma nova religião que eles proclamavam, da mesma forma que não foi uma nova religião que Jesus proclamou. Como ele, eles eram judeus devotos e leais, tão devotos e leais como os próprios fariseus, e sua crença em Jesus não envolvia nenhuma mudança na religião de seus pais. Como estes sempre haviam feito, eles sem dúvida continuariam a se engajar, com zelo e devoção ainda maiores, nos exercícios religiosos de seu povo. Seu Deus era o Deus de Israel, sua lei era a lei judaica, e sua Bíblia era a Bíblia dos judeus. Não há sinal de nenhuma diferença entre suas ideias de Deus e as ideias de Deus de seus conterrâneos. Como estes, eles adoravam o único Deus de Israel, aquele que criou e governa o mundo, o Deus de Abrahão, Isaque e Jacó. ( . . . ) Sua convicção de que Jesus havia ressuscitado e ascendido aos céus não significava nenhuma violação do monoteísmo que eles haviam herdado de seus antepassados. Foi Deus, o Deus de seus pais, que ressuscitou Jesus dentre os mortos e o colocou no lugar de honra à mão direita do Altíssimo. Eles acreditavam que Jesus era o Messias e que ele haveria de vir novamente nas nuvens dos céus para julgar o mundo, mas eles certamente não o identificavam com Deus e não há nenhuma razão para supor que eles o considerassem um ser divino ou que eles vissem nele alguém mais do que simplesmente o servo e ungido de Deus” [3].

3. A Mensagem de Paulo

Eis o que diz McGiffert sobre a mensagem de Paulo e a visão que ele tinha de Jesus, mensagem e visão que representam uma nítida evolução em relação à mensagem de Jesus e de seus discípulos e à visão que tinham de Jesus (no caso do próprio Jesus, sua “auto-visão”). Essa evolução nos ajudará a entender, mais adiante, o desenvolvimento da doutrina cristológica e de todo o pensamento teológico cristão na Idade Média e no Período Moderno e até mesmo na Era Contemporânea.

[Acerca de Paulo:] “O núcleo central [de sua visão da fé cristã] estava na crença de que Jesus Cristo é um ser divino, que, através de sua morte e ressurreição, salva aqueles que se unem a ele através da fé.  ( . . . ) A salvação que ele buscava era do pecado, não da morte: seu objetivo era a justificação, não a imortalidade. ( . . . ) Sua teologia foi formulada em termos do dualismo helenístico que prevalecia na época. A visão de Jesus Cristo à qual ele relacionava a sua própria conversão era a de um ser divino que desceu do céu, assumiu a forma humana e, depois, dela se libertou, para que os homens, identificando-se com ele em sua morte e sua ressurreição, pudessem morrer na carne e viver uma nova vida perfeitamente justificados no espírito. Essa interpretação da morte e da ressurreição de Jesus é, tanto quanto nos é dado saber, fruto da originalidade de Paulo. Embora ela tenha feito uso, em sua interpretação da morte e da ressurreição de Jesus, de elementos retirados das religiões de mistério de sua época, ela é diferente, e nisso profundamente original, ao ser total e consequentemente ética. ( . . . ) Nas mãos de Paulo a nova religião, baseada nas religiões de mistério, tornou-se, ao contrário delas, uma religião ética, uma característica que ela nunca veio a perder totalmente, mesmo quando se acrescentaram a ela camadas de materiais estranhos e irrelevantes. Apesar das importantes diferenças que há entre a mensagem de Jesus e a teologia de Paulo, nesta questão fundamental elas eram coerentes – um fato do maior significado histórico” [4].

4. A Evolução Posterior

Cito essas passagens razoavelmente extensas de McGiffert para mostrar a distinção sensível e a transição significativa entre a proclamação de Jesus e dos discípulos originais, como preservada nos Evangelhos Sinóticos, e a mensagem de Paulo (e, de certo modo, do Evangelho de João), preservada (com mudanças e adaptações) nos demais livros do Novo Testamento.

No primeiro caso, Jesus, em seu ministério, e os discípulos, durante a vida de Jesus, conforme relatado nos Evangelhos Sinóticos, bem como os discípulos de Jesus (fora Paulo), depois de sua morte, conforme relatado no livro de Atos dos Apóstolos, são claramente descritos como seres humanos que se colocam na posição de mensageiros do Reino de Deus. O conteúdo de sua mensagem do Reino de Deus está nas ações de Deus – o Deus dos Judeus – para redimir seu povo.

Não há dúvida de que os discípulos consideravam Jesus seu líder e como o “Ungido” de Deus (o “Messias” que havia de vir). Mas ele era ainda considerado um ser humano como eles, mesmo depois das aparições posteriores à sua morte.

Ou seja, Jesus foi, até sua morte, um judeu, e assim se viu e se entendeu. Os discípulos, todos eles judeus, nunca deixaram de ser judeus – e nunca deixaram de ver em Jesus um homem como eles (embora um homem ungido por Deus).

Foi Paulo que “divinizou” Jesus e fez de Jesus o próprio conteúdo de sua mensagem. Para Paulo, que era um judeu, etnicamente, e um romano, juridicamente, mas que era um grego (helenista), filosoficamente, Jesus já é um ser divino (o Logos?) encarnado, e esse ser divino passa a ser, especialmente no que diz respeito à sua morte e ressurreição, o próprio conteúdo da mensagem que ele proclama. Em outras palavras, nessa transição, o mensageiro se tornou a mensagem.

Essa mudança, da qual Paulo é o principal autor e artífice, é essencial para a constituição do Cristianismo que veio a ser propagado no mundo gentio e chegou até nós.

É essa nova mensagem que vai ser teologicamente elaborada nos séculos seguintes, recebendo sua formulação clássica em Agostinho de Hipona (354-430), que embora não fosse o que possamos chamar de um “teólogo sistemático”, como os de hoje (ou como foram Tomás de Aquino e João Calvino), certamente deu a formulação clássica a todos os componentes da teologia que a igreja oficialmente adotou na Idade Média e posteriormente. Ele fez isso basicamente em termos da filosofia platônica, ou, especialmente, neoplatônica, vigente nos seus dias.

Tomás de Aquino (1225-1274) aristotelizou aquilo que, em Agostinho, era platônico, mas manteve a mesma visão e estrutura da teologia cristã que Paulo havia iniciado e à qual Agostinho deu uma elaboração mais cuidadosa e sistemática.

Na Reforma, Martinho Lutero (1483-1546) e João Calvino (1509-1564) recusaram-se a aceitar a formulação escolástica de Tomás de Aquino e se propuseram voltarnão ao Cristianismo Primitivo de Jesus, mas à teologia de Agostinho, vale dizer, a Paulo como lido e entendido por Agostinho.

Adolf von Harnack (1851-1930), o maior historiador que a Igreja já teve, e o último dos grandes teólogos liberais do século 19 [5], com quem McGiffert estudou na Alemanha, optou, como teólogo liberal que era, por voltar, não aos Reformadores, nem a Agostinho, mas à religião ética de Jesus (como ele a entendeu), à qual deu o rótulo de “Cristianismo Primitivo” (ou de “A Essência do Cristianismo”) [6].

À religião de Paulo, ainda que também ética, mas que teve seu componente ético misturado à metafísica helenística, von Harnack deu o rótulo de “Catolicismo Primitivo[7].

A teologia liberal de von Harnack e seus predecessores, em especial a de Albrecht Ritschl (1822-1899), tentou voltar à religião ética de Jesus – àquilo que von Harnack chamou de “A Essência do Cristianismo”, passando por cima da teologia do “Catolicismo” – tanto o primitivo, de origem paulina, como o niceno-calcedônico, produzido nos Concílios Ecumênicos. Segundo von Harnack, a Reforma Protestante (Lutero, Calvino, etc.) passou por cima apenas da teologia medieval do Catolicismo (a saber, Tomás de Aquino), voltando, não a Jesus, nem mesmo a Paulo, mais a Agostinho, o grande elaborador da teologia paulina no final do período antigo do Cristianismo, formulando aquela que veio a ser a teologia do período seguinte, a Idade Média. Nessa visão profundamente original de von Harnack, a teologia da Reforma, paradoxalmente, continuou a ser Católica (i.e., paulina-agostiniana), não tendo voltado à “essência” do Cristianismo, a pregação ética de Jesus – algo que apenas a teologia liberal do século 19 teria feito.

5. Notas

[1] Arthur Cushman McGiffert (1861-1933) foi um dos pivôs da crise entre Fundamentalistas e Modernistas na Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos no final do século 19 e começo do século 20. Ele era professor de História da Igreja no Union Theological Seminary, de New York, instituição que era presbiteriana mas que, em função, em parte, dessa crise, cortou os laços com a Igreja Presbiteriana e se tornou um seminário interdenominacional autônomo, sem vínculo com qualquer denominação. Ele foi aluno de Adolf von Harnack, na Alemanha, de 1885-1887 – fato que explica a coerência entre suas teses e as do historiador / teólogo alemão. O livro de McGiffert a que farei referência é A History of Christian Thought, Vol. I: Early and Eastern – From Jesus to John of Damascus (Scribner’s, New York, 1932, 1960), em especial os Capítulos 1 (“Jesus and his Disciples”) e 2 (“The Apostle Paul”). Compare-se  uma breve mas bastante informativa biografia de McGiffert na Wikipedia, verbete “Arthur Cushman McGiffert”, https://en.wikipedia.org/wiki/Arthur_Cushman_McGiffert.

[2] Op.cit., p.8. [Tradução de Eduardo Chaves.]

[3] Op.cit., p.14. [Tradução de Eduardo Chaves.]

[4] Op.cit., pp.20-21. [Tradução de Eduardo Chaves.]

[5] Entre outras funções, von Harnack foi Reitor da Universidade de Berlin, Diretor da Biblioteca Nacional Alemã, Presidente da Academia Alemã de Ciências, e Principal Consultor do Kaiser para assuntos culturais.

[6] Compare-se, em especial, seu livro Das Wesen des Christentums, escrito em 1899/1900, cujo título significa, em Português, “A Essência do Cristianismo”, e que foi traduzido para o Inglês com o título What is Christianity?, que significa, em Português, “O Que É o Cristianismo?”.

[7] Compare-se, em especial, seu monumental Lehrbuch der Dogmengeschichte, em três volumes, escrita de 1894 a 1898, traduzida para o Inglês com o título History of Dogma – o título significando, em Português, “Manual da História do Dogma” (título em Alemão) e “História do Dogma” (título em Inglês). A tradução para o Inglês foi originalmente publicada em sete volumes, depois juntados em quatro, agrupando-se em um só volume o segundo e o terceiro (que passaram a figurar como o segundo volume), o quarto e o quinto (que passaram a figurar como o terceiro volume), e o sexto e o sétimo (que passaram a figurar como o quarto volume). Eis o que diz Wilhelm Pauck sobre essa obra em seu livro Harnack and Troeltsch: Two Historical Theologians (Oxford University Press, New York, 1968), p. 8: “A História do Dogma terá um lugar permanente entre as obras primas da literatura teológica. Ainda que ela venha a ser ultrapassada em partes específicas, será sempre considerada, em seu todo, o trabalho mais criativo de interpretação histórica jamais feito da igreja e de sua evolução teológico-dogmática, concebido com grandeza e executado com habilidade inigualável, tanto no que diz respeito ao conteúdo como à forma.”

Salto, SP, 21 de Novembro de 2016; revisado em 12 de Março de 2017, ainda em Salto.

Eduardo Chaves
Professor de História da Igreja / FATIPI

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