As Institutas de Calvino e Eu

Tive o privilégio, talvez inédito, de ter sido aluno de dois tradutores das Institutas (título completo: Institutas da Religião Cristã) de João Calvino reconhecidos pela sua competência. (Parece-me altamente improvável que alguém mais no mundo tenha estudado com dois tradutores das Institutas, para línguas diferentes, em algum lugar do planeta…).

No Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas, nos idos de 1964-1966, fui aluno (de Grego, durante três semestres) de Waldyr Carvalho Luz, que, posteriormente, em 1984 e 2003, publicou duas edições de sua tradução das Institutas para o Português. Na década de 1970 e 1980 vim a ser colega de Waldyr Carvalho Luz na UNICAMP.  Eu já trabalhava lá desde 1974 quando ele foi contratado pelo Instituto de Estudos da Linguagem para ministrar disciplinas de Grego e Latim. (Foi uma experiência sui generis tornar-me colega de quem houvera sido meu professor. Mas isso já me havia acontecido uma vez antes: em 1972 fui contratado pela California State University, em Hayward, por recomendação de meu Orientador de Doutorado, William Warren Bartley, III, que acabara de se transferir da Universidade de Pittsburgh para lá, para poder gozar os benefícios da da área da Baía de San Francisco… )

No Pittsburgh Theological Seminary, em Pittsburgh, USA, nos idos de 1967-1970, e, em seguida, na University of Pittsburgh, na mesma cidade, de 1970-1972, fui aluno (de História da Igreja, de Crítica de Fontes, do famoso Seminário sobre Calvino, que durava um ano inteiro, no qual a gente lia as Institutas por inteiro, da primeira à última página) de Ford Lewis Battles, que havia publicado, em 1960, a até hoje mais conceituada tradução das Institutas para o Inglês, a que figura na famosa Library of Christian Classics, da Westminster Press. Nenhuma tradução para o Inglês foi sequer cogitada depois dessa, com base na última edição latina das Institutas, de 1559.

Ambas as traduções foram feitas a partir da última edição em Latim das Institutas, publicada em Genebra, em 1559 – embora os dois tradutores tenham cotejado sua tradução com as edições anteriores das Institutas e com traduções feitas para outras línguas, em especial o Francês (língua nativa de Calvino) e o Inglês. (A seguir forneço uma lista das principais edições das Institutas em Latim, Francês, Inglês e Português).

Battles também traduziu para o Inglês a primeira edição das Institutas, publicada em 1536. Ele publicou essa tradução quase ao mesmo tempo que sua tradução da última edição, mas por uma outra editora. A primeira edição das Institutas tinha menos de 1/5 do tamanho da última.

Na sequência, transcrevo:

  • As datas das cinco edições da obra em Latim
  • As datas das traduções da obra para o Francês feitas pelo próprio Calvino
  • As datas e o nome do tradutor das traduções da obra para o Inglês
  • As datas e o nome do tradutor das traduções da obra para o Português
  • Os dois prefácios de Waldyr Carvalho Luz às edições de 1984 e 2003 de sua tradução em Português

1. Edições em Latim durante a Vida de Calvino (5 edições)

1536: Christianae Religionis Institutio (Basel: Thomam Platteru & Balthasarem Lasium)

1539: Institutio Christianae Religionis (Strassburg: Wendelinum Rihelium)

1543: Institutio Christianae Religionis (Strassburg: Wendelinum Rihelium)

1550: Institutio Totius Christianae Religionis (Genève: Jean Girard)

1559: Institutio Christianae Religionis (Genève: Robert I. Estienne)

Título completo da última edição, a de 1559:

Institutio christianae religionis, in libros quatuor nunc primum digesta, certisque distincta capitibus, ad aptissimam methodum: aucta etiam tam magna accessione ut propemodum opus novum haberi possit (5a ed.).

2. Edições em Francês Feitas ou Supervisionadas por Calvino (6 edições)

1541: Institution de la Religion Chrestienne (Genève: Michel Du Bois)

1545: Institution de la Religion Chrestienne (Genève: Jean Girard)

1551: Institution de la Religion Chrestienne (Genève: Jean Girard)

1553: Institution de la Religion Chrestienne (Genève: Jean Girard)

1554: Institution de la Religion Chrestienne (Genève: Philbert Hamelin)

1560: Institution de la Religion Chrestienne (Genève: Jean Crespin)

[Curiosamente, todas as edições foram publicadas em Genebra, que é uma cidade na Suíça, mas que fala Francês e faz divisa com a França.]

3. Edições em Inglês (7 edições somando edw.  1559, 1541 e 1536)

1561: The Institution of Christian Religion, translated by Thomas Norton (London: Reinolde Vvolf & Richarde Harisson)

1813: Institutes of the Christian Religion, translated by John Allen (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication)

1845: Institutes of the Christian Religion, a new translation by Henry Beveridge (Edinburgh: Calvin Translation Society)

1960: Institutes of the Christian Religion, translated by Ford Lewis Battles (Philadelphia: Westminster Press)

1960: Institutes of the Christian Religion, translated by Ford Lewis Battles from the 1536 Latin edition. (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co.)

2009: Institutes of the Christian Religion, translated by Elsie Anne McKee from the 1541 French edition. (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co.)

2014: Institutes of the Christian Religion, translated by Robert White from the 1541 French edition. (Carlisle, PA: Banner of Truth)

4. Edições em Português (4 edições)

1984: As Institutas da Religião Cristã, edição clássica, em quatro volumes, tradução de Waldyr Carvalho Luz, com base na edição de 1559 em latim (São Paulo: Editora Cultura Cristã, Primeira Edição, 1984)

2004: As Institutas da Religião Cristã, edição clássica, em quatro volumes, tradução de Waldyr Carvalho Luz, com base na edição de 1559 em latim (São Paulo: Editora Cultura Cristã, Segunda Edição, revista, com linguagem atualizada e simplificada, 2004)

2006: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, em quatro volumes, com notas para estudo e pesquisa, tradução de Odayr Olivetti, com base na tradução da edição de 1541 em francês (São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006)

2008: A Instituição da Religião Cristã, em dois volumes, tradução de Carlos Eduardo de Oliveira [vol 1], Omayr J. de Moraes Jr. e Elaine C. Sartorelli [vol 2], com base na edição de 1559 em latim (São Paulo: Editora da UNESP, 2008 [vol 1] e 2009 [vol 2]).

5. Prefácios do Tradutor à Primeira Tradução para o Português

A. Waldyr Carvalho Luz, Prefácio à Primeira Edição

Indiscutivelmente, é João Calvino o pensador máximo da Reforma e sua famosa obra, as chamadas Institutas, o magnum opus não apenas de seus escritos, mas de toda a literatura produzida pelos Reformadores. Verdadeira aberração histórica, de um lado, deplorável lacuna teológica, de outro, mais até, pasmosa expressão da incúria ou displicência da liderança eclesiástica, esta obra monumental ainda não existe em português decorridos quatro séculos de existência da fé reformada! O presbiterianismo brasileiro, entretanto, de longa data vem clamando pela tradução das Institutas. Iniciativa tomada neste sentido, passados já duas décadas e mais de um lustro, ainda não parece haver vindo ao encontro desse desideratum. Em 1970, se me não trai a memória, o Congresso de Homens Presbiterianos reunido no Recife dirigiu à direção da Igreja Presbiteriana do Brasil pedido formal a que providenciasse essa desejada, mas retardada tradução. Presente ao conclave, fui instado pelo então Presidente do Supremo Concílio a assumir essa tarefa, fazendo a tradução diretamente do latim, ao invés de o ser da versão francesa. Foi só em 1973, entretanto, que, gozando de um estágio nos Estados Unidos, mercê da deferência da Christian Reformed Church, pude tentar atender à incumbência. De fato, nesse período traduzi todo o livro I. Escrevi, porém, ao Presidente do Supremo Concílio que a tradução exigiria muito mais tempo e se faria de mister reduzir-se-me-ia o trabalho de docente no Seminário, que eu então exercia. Retornando ao Brasil, absorvido pelas obrigações do magistério e voltado à redação de meu Manual de Grego, descontinuei a tradução até 1979, quando, já agora professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), consegui que a tradução fosse aceita como correspon- dendo ao trabalho de pesquisa exigida dos professores dessa egrégia instituição de ensino. Revi a tradução já feita do livro Igreja e prossegui por um terço do livro II, quando, discutindo a matéria com o professor Franz Leonard Schalkwijk, do Seminário Presbiteriano do Recife, concluí que a obra assumira caráter excessivamente acadêmico, seja na linguagem demasiado erudita, seja nas notas inclusas, dada a forma do original latino para cada frase e cláusula. Resolvi, pois, não só refazer a redação, mas também reduzir ao mínimo necessário as referências e notas explicativas. É esta tradução revista que, com muitas graças ao Senhor, carinhosamente ofereço agora aos estudiosos, no desejo sincero de enriquecer-lhes a vida espiritual e legar à Igreja um tesouro precioso para a obra de doutrinação e aprofundamento teológico. Praza a Deus abençoa-la, para que alcance esse alvo, motivo de minhas orações e recompensa máxima de meus esforços.

Uma palavra de explicação se impõe. Ante um documento histórico dessa importância e de teor tão distanciado da forma vernácula, um dilema se interpunha: ou apegar-me ao texto, buscando-lhe a máxima fidelidade, ou, com vistas à clareza da tradução, afastar-me sensivelmente do original. Optei pela primeira alternativa, deixando a futuros expositores a incumbência de interpretar e afeiçoar a expressão de Calvino a moldes mais comunicativos e a forma de fato mais vernácula, mais livre e atualizada, parafraseada até. Logo, em ser literal, busquei reter, tanto quanto exeqüível, o exato sentido do original latino, quiçá a própria terminologia, se não a fraseologia, pois estou que a primeira e principal qualidade de uma boa tradução é a máxima fidelidade ao que diz o autor. Se, por vezes, a linguagem parece algo obscura e especiosa, isso se deve à própria natureza do latim e ao estilo de Calvino, que não parece azado modificar. Todavia, inserem-se, em colchetes, palavras e expressões que, não parte do original, visam a tornar mais clara a tradução. Ademais, aduzem-se explicações e variantes ou alternativas à forma adoptada, facilitada, assim, a compreensão do texto. Entretanto, é uma obra que tem de ser lida de forma pausada, refletida, cuidadosa, sem sofreguidão nem açodamento, a atenção voltada para com o contexto e a tônica da matéria enfocada.

Afigurou-se proveitoso cotejar a tradução presente com outras de fácil acesso. Destarte, fiz uso da Edição Francesa, texto atualizado de Pierre Marcel e Jean Cadier, de 1955 (abreviatura: EF), da valiosa tradução para o inglês de Ford Lewis Battles, edição de 1961 (abreviatura: B), da alemã de Karl Muller, edição de 1928 (abreviatura: KM) e da espanhola de Cipriano de Valera, na forma da revisão de 1967 (abreviatura: CR). Até onde possível, verifiquei as referências feitas aos acervos da Patrologia Latina de Magne (PLM) e sua congênere, a Patrologia Grega (PGM), bem como à Loeb Classical Library (LCL) e ao Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum (CSEL), de outra sorte citados conforme se mencionam nas versões cotejadas.

Ponto que merece esclarecimento é o referente às citações de textos bíblicos. Mantive a forma adoptada pelo próprio Calvino. Não é o texto da Vulgata, pelo menos na Versão Clementina, dela divergindo, por vezes, sensivelmente. É matéria para interessante consideração da Crítica Textual. Ademais, parece Calvino modifica-los, alterá-los, adapta-los, fundindo passagens ou fracionando-as, conforme o a que visava, proceder longe de estranhável em uma época em que a moderna divisão capitular e versicular ainda não era generalizada, muito menos estereotipada, nem os cânones critico-textuais fixados e reconhecidos como hoje. Este é, portanto, um aspecto em que se há de atualizar ou revisar o texto ao aplica-lo em moldes correntes. A fidelidade histórica, entretanto, não permitiria referi-los em termos das traduções modernas ou do texto agora vigente.

Muito e a muitos teria de registrar meu profundo agradecimento para que pu- desse levar a cabo esta para mim venturosa empreitada. Primeiramente, a Deus, Pai Amantíssimo, que me conservou com vida e conferiu a capacidade para esta delicada e morosa tarefa; à Christian Reformed Church o propiciar-me período de estudos que me facultaram o contacto primeiro com o esforço de tradução, bem como o interesse na presente edição, objetivando em valioso subsídio financeiro; ao Dr. Peter de Klerk, bibliotecário do Calvin College, Grand Rapids, Michigan, a valiosa colaboração prestada no uso de obras de seu acervo e informações fornecidas posteriormente; assim, ao Rev. Júlio Andrade Ferreira que, generosamente, tanto me assistiu com livros de que tive necessidade ao longo de todo o demorado labor da tradução; à UNICAMP o sólido apoio à iniciativa, expresso na aceitação deste trabalho como parte dos encargos exigidos dos docentes; ao professor Rodolfo Ilari, colega de docência, a inestimável ajuda na consecução desse apoio; ao Rev. Celsino da Cunha Gama, Diretor Executivo de Luz Para o Caminho, o empenho em fazer com que a obra viesse a lume, assumindo de começo a dura tarefa de publicação; ao presbítero Glaycon Andrade Ferreira, que se desdobrou na revisão primeira da composição; ao presbítero Dr. Paulo Breda Filho, Presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, ao presbítero Antonio Ribeiro Soares, Diretor Superintendente da Casa Editora Presbiteriana, e ao Rev. Sabatini Lalli, o interesse em ter a obra publicada sob o patrocínio da Igreja Presbiteriana do Brasil, como sempre desejamos. Ao Rev. Sabatini, ademais, o penoso trabalho de revisão final e as opor- tunas sugestões feitas na parte redacional. À minha nobre esposa, Amélia Stephan Luz, a dedicação e ajuda prestadas de mil e uma formas, sem o que não teria eu tido condições de levar a cabo a árdua empreitada. Aos estudantes do Seminário Presbiteriano de Campinas e a muitos colegas o generoso estímulo, demonstrado vezes tantas e de tantas maneiras. De reconhecimento especial, finalmente, é credora a Comissão Calvino, constituída de ilustres irmãos do Norte, centralizados no Recife, que me respaldaram o esforço com sugestões preciosas, certa ajuda financeira até que assumi a docência com tempo integral na Universidade, leal incentivo e muita oração.

Que lhes recompense a todos a nobreza de alma o grande Senhor Nosso. E que seja este esforço, fruto de intenso labor e especial carinho, ricamente abençoado por Deus de sorte que dele possam muitos auferir grande proveito espiritual e muito estímulo para testemunhar eficazmente de Cristo e seu Evangelho.

Campinas, junho de 1984

Waldyr Carvalho Luz

B. Waldyr Carvalho Luz, Prefácio à Segunda Edição

É fato assaz auspicioso que a primeira edição das Institutas em nossa língua portu- guesa haja sido toda vendida em pouco mais de uma década de sua publicação. Por um lado, demonstra que nosso meio cultural, apesar de tantas limitações e carências, se esmera em cultivar e aprofundar seus conhecimentos teológicos, não desdenhando uma obra que, embora produzida no século 16, é de imensa atualidade, não somente porque representa a magnum opus da Reforma Protestante, documento histórico de real grandeza, mas também porque é uma sistematização da doutrina bíblica de invulgar profundidade e acuracidade hermenêutica irretorquível, fundamento essencial do pensamento protestante clássico. Por outro lado, revela uma visão compreensiva e ampla do mundo teológico, o mais das vezes afeito a vultos e obras ditas modernas, modismos efêmeros e superficiais, de pouca duração e mesmo raízes.

A presente edição difere da anterior em que não mais se aduzem as repetidas notas de rodapé que registravam variantes comparativas de tradução verificadas em duas versões do inglês, da alemã, da espanhola e, mesmo, da francesa. Também, a critério dos editores, retiram-se os colchetes que assinalavam termos e formas que, não en- contradas no texto latino original, o tradutor inseriu para efeitos de clareza e expressão, como é o caso dos artigos definido e indefinido e do pronome da terceira pessoa, ausentes na língua latina, que nós, falantes luso-brasileiros adaptamos do demonstrativo ille, illã, illud, em sua forma acusativa. Tais aduções bem que poderiam aparecer em itálico ou negrito. Tratando-se de documento de tal vulto, ao traduzirmo-lo, procuramos, sem sermos literais, ater-nos ao estilo e terminologia de Calvino o mais possí- vel, pelo que nem sempre a tradução é clara e fluente como seria de desejar-se. Os editores, para tornar o texto mais lúcido e acessível, tomaram a liberdade de fazer certos ajustes e alterações, registrando, porém, em nota de rodapé a forma integral da tradução de nossa lavra na primeira edição. É preciso que o leitor tenha em mãos exatamente o que o teólogo de Genebra escreveu, sem deturpações ou falseamento do teor, exatidão necessária em documento desse jaez e importância.

Congratulamo-nos com a Editora Cultura Cristã pela arrojada, mas oportuna, iniciativa de reeditar as Institutas e alegramo-nos em poder continuar facultando ao estudioso Calvino falado em nosso idioma.

Abençoe o Senhor este nobre empreendimento.

Campinas, setembro de 2003

Waldyr Carvalho Luz

 Eduardo Chaves
Em São Paulo, 19 de Setembro de 2017

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